Em reconhecer que a vida não basta.
Caminhamos entre ruas, livros, rostos e despedidas
Como quem tenta recolher o oceano com as próprias mãos.
O mundo oferece seus venenos lentamente:
A beleza que não podemos possuir,
As palavras que chegam tarde,
Os amores que atravessam a nossa existência
Como cometas que não retornam.
E talvez seja justamente essa insuficiência
Que torne tudo tão humano.
Não temos tempo para absorver todas as dores,
Nem para compreender todos os abismos,
Nem sequer para tocar todas as formas de eternidade
Que o mundo esconde atrás das coisas simples.
Vivemos de goles.
Profundos, às vezes.
Mas ainda assim incompletos.
Há quem tente devorar o mundo inteiro
E termine vazio.
Há quem aceite a limitação da própria sede
E descubra, no pouco, uma espécie de infinito.
Porque o veneno do mundo
Não está apenas na ruína, na perda ou no desencanto.
Está também naquilo que fascina:
Na arte que nos desmonta,
Na memória que insiste,
Na consciência de que jamais veremos tudo,
Jamais entenderemos tudo,
Jamais amaremos tudo o que poderia ter sido amado.
Quem sabe a tragédia mais silenciosa da existência
Não seja morrer,
Mas partir sabendo
Que o universo continuaria oferecendo mistérios
Mesmo que tivéssemos mil vidas para atravessá-lo.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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