Quando o relógio hesita diante da própria tarefa,
E a fumaça do café sobe
Como uma lembrança sem destino,
Há uma cidade invisível sob a cidade,
Um reino de coisas esquecidas pela velocidade.
Os homens caminham carregando calendários,
Rostos iluminados por pequenas telas
E antigas inquietações,
Como peregrinos que perderam o mapa
E conservaram o movimento.
Ninguém pergunta ao vento o que ele sabe das esquinas.
Ninguém consulta a sombra que cresce sobre os muros.
Mas eu vi, ao desacelerar,
A folha girando sobre a água escura da sarjeta,
O pássaro imóvel sobre o fio elétrico,
O brilho de uma janela ao entardecer,
E cada uma dessas coisas
Parecia conter uma profecia incompleta.
O mundo moderno acumula fragmentos,
Vozes interrompidas, promessas abandonadas,
Ecos de máquinas e anúncios que se repetem sem fé.
Entretanto, sob os escombros da pressa,
Permanece uma ordem que raramente se revela.
Quem sabe a verdade não habite os grandes discursos.
Pode ser que resida nos intervalos,
Naquilo que permanece quando o tumulto se afasta,
Como uma luz distante atravessando a neblina,
Ou como uma palavra antiga
Que ninguém pronunciou corretamente.
Seguimos, entre relógios e estações,
Procurando o extraordinário em lugares remotos,
Enquanto a eternidade repousa discretamente
Na breve quietude entre um passo e outro,
Esperando que alguém
Tenha a coragem de parar e olhar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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