domingo, 8 de novembro de 2026

Em lugares remotos

 Na pausa entre dois ruídos da manhã, 
Quando o relógio hesita diante da própria tarefa, 
E a fumaça do café sobe 
Como uma lembrança sem destino, 
Há uma cidade invisível sob a cidade, 
Um reino de coisas esquecidas pela velocidade. 
 
Os homens caminham carregando calendários, 
Rostos iluminados por pequenas telas 
E antigas inquietações, 
Como peregrinos que perderam o mapa 
E conservaram o movimento. 
Ninguém pergunta ao vento o que ele sabe das esquinas. 
Ninguém consulta a sombra que cresce sobre os muros. 
 
Mas eu vi, ao desacelerar, 
A folha girando sobre a água escura da sarjeta, 
O pássaro imóvel sobre o fio elétrico, 
O brilho de uma janela ao entardecer, 
E cada uma dessas coisas 
Parecia conter uma profecia incompleta. 
 
O mundo moderno acumula fragmentos, 
Vozes interrompidas, promessas abandonadas, 
Ecos de máquinas e anúncios que se repetem sem fé. 
Entretanto, sob os escombros da pressa, 
Permanece uma ordem que raramente se revela. 
 
Quem sabe a verdade não habite os grandes discursos. 
Pode ser que resida nos intervalos, 
Naquilo que permanece quando o tumulto se afasta, 
Como uma luz distante atravessando a neblina, 
Ou como uma palavra antiga 
Que ninguém pronunciou corretamente. 
 
Seguimos, entre relógios e estações, 
Procurando o extraordinário em lugares remotos, 
Enquanto a eternidade repousa discretamente 
Na breve quietude entre um passo e outro, 
Esperando que alguém 
Tenha a coragem de parar e olhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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