domingo, 1 de novembro de 2026

Pobre sonhador

 Quem sou eu? 
Quem sabe apenas um intervalo 
Entre o desejo e o silêncio. 
Um nome que o vento aprende e esquece. 
Um corpo cansado de caber na própria pele 
E uma alma insistente em transbordar. 
 
Sou um poeta, e isso já é uma forma de pobreza. 
Não de moedas, mas de certezas. 
Carrego versos no lugar de respostas, 
E sonhos onde o mundo exige concreto. 
Vivo do que não se toca, 
E amo aquilo que não se explica. 
 
Pobre sonhador, sim, 
Porque sonhar é arriscar-se à queda constante, 
É construir palácios onde só há chão duro, 
É acreditar que o impossível, às vezes, cochicha. 
 
E então surge ela, 
A mulher mais linda do mundo, 
Não apenas nos olhos, 
Mas naquilo que ela desperta. 
E eu me pergunto: 
Quem sou eu para merecê-la? 
 
Talvez ninguém. 
E talvez seja exatamente isso. 
Porque o amor não se negocia com méritos, 
Não se pesa em posses, 
Não se mede pela grandeza de quem ama. 
 
O amor, quando vem, 
Não pergunta quem você é, 
Apenas entra, 
Como luz por uma fresta esquecida. 
 
Quem sabe, no fim, 
Ser poeta seja a única riqueza possível. 
Ter dentro de si um universo inteiro 
E ainda assim oferecer tudo 
A um único olhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Uma aposta idiota

 Eu te amei, garota, 
E não há nada de bonito em admitir isso 
Depois de tantas noites bebendo o silêncio 
E fingindo que a solidão 
Era apenas uma velha amiga sentada no sofá. 
 
Você foi embora, 
Como vão embora as pessoas 
Que juraram ficar, 
Deixando um copo sujo na pia, 
Um lado vazio da cama 
E essa maldita lembrança que não paga aluguel 
Mas insiste em morar comigo. 
 
Não vou dizer que me arrependo. 
O amor foi uma aposta idiota, 
Como quase tudo nesta vida, 
Mas, naquela época, 
Quando você sorria para mim, 
Até o mundo parecia menos filho da puta. 
 
Hoje, não espero mensagens, 
Não procuro seu rosto na multidão, 
Nem pergunto por você aos amigos. 
Aprendi a sobreviver à sua ausência, 
O que é diferente de esquecê-la. 
Porque é impossível dizer 
Que não te amei. 
 
Seria como negar as cicatrizes 
Só porque a ferida fechou, 
Ou dizer que nunca houve incêndio 
Porque agora só restam cinzas. 
E, acredite, 
Eu já menti para mim mesmo 
Sobre coisas muito maiores. 
Mas não sobre você. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense