terça-feira, 3 de novembro de 2026

As luzes e o silêncio

 A cidade desperta antes dos homens. 
As vitrines acendem seus pequenos sóis artificiais, 
E cada rosto atravessa a manhã 
Como quem carrega uma biografia emprestada. 
Nas calçadas, o eco dos passos pergunta, em vão, 
Quem ainda se recorda do próprio nome. 
 
No quarto estreito, uma xícara de café esfriando 
Vale mais do que o brilho das janelas espelhadas. 
Há uma verdade discreta nas coisas comuns, 
O pó sobre os livros, o relógio insistente, 
A cadeira vazia esperando alguém 
Que talvez nunca tenha partido. 
 
Vivemos cercados por espelhos 
Que refletem apenas aquilo que desejam vender. 
Mas a alma não aprende sua linguagem nas vitrines. 
Ela prefere o rumor da chuva sobre o telhado, 
O peso das lembranças, 
E a humilde claridade de uma manhã qualquer. 
 
Quem sabe a felicidade nunca tenha sido um espetáculo. 
Talvez sempre tenha caminhado descalça, 
Sem anúncios, sem testemunhas, 
Entre a fadiga e a esperança. 
E pode ser que a maior pobreza 
Seja gastar a vida adornando a própria máscara. 
 
Quando a noite recolhe as últimas vozes, 
Permanece apenas o diálogo silencioso 
Entre aquilo que mostramos ao mundo 
E aquilo que ousamos confessar a nós mesmos. 
Nesse intervalo, breve como um suspiro, 
O simples deixa de ser pequeno e torna-se eterno. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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