terça-feira, 7 de julho de 2026

Fragmentos de um enigma

Fazemos o que fomos treinados para fazer. 
Como pássaros que aprenderam a voar dentro da gaiola, 
Confundimos o giro do ferro com o ciclo do céu. 
Carregamos dentro de nós o som de vozes antigas, 
Instruções gravadas na medula, 
Códigos que se disfarçam de vontade. 
E chamamos isso de viver. 
 
Fomos criados para repetir o gesto do fogo e do medo, 
Para alimentar a engrenagem do mundo 
Com o sopro breve do nosso cansaço. 
Somos filhos da rotina, discípulos do costume, 
Sacerdotes de um templo sem deus. 
E ainda assim, há algo em nós que não obedece. 
 
Há um sussurro, discreto como vento em ruínas, 
Que insiste em lembrar o indomado. 
Esse sussurro é o primeiro som do universo, 
A voz anterior ao nome, 
A lembrança do que fomos antes do molde. 
É ele quem, às vezes, move o corpo 
Sem que saibamos por quê. 
 
Nascemos com esse chamado dentro do peito. 
Mas o mundo, com seus ruídos e ordens, 
Nos ensina a silenciá-lo. 
Ensina-nos a confundir o dever com o destino, 
A disciplina com a verdade, 
O hábito com a alma. 
E assim seguimos, cumprindo o papel que nos deram, 
Crendo que é o nosso. 
 
Mas há noites em que a ilusão se parte. 
A lua nos observa como se nos conhecesse, 
E por um instante, o tempo se curva. 
O que fomos treinados para ser se desfaz, 
O que fomos criados para fazer se apaga, 
E resta apenas o que nascemos para recordar: 
A liberdade secreta que nenhum mestre ensina. 
 
Então compreendo: 
Não somos apenas servos do destino, 
Mas fragmentos do próprio enigma. 
A cada ato de obediência, uma semente dorme; 
A cada lampejo de consciência, ela germina. 
E quem sabe toda a vida seja isso, 
Um lento aprendizado para desobedecer com beleza, 
Até que o espírito se recorde 
De que nasceu para ser chama, 
Não ferramenta. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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