Fazemos o que fomos treinados para fazer.
Como pássaros que aprenderam a voar dentro da gaiola,
Confundimos o giro do ferro com o ciclo do céu.
Carregamos dentro de nós o som de vozes antigas,
Instruções gravadas na medula,
Códigos que se disfarçam de vontade.
E chamamos isso de viver.
Fomos criados para repetir o gesto do fogo e do medo,
Para alimentar a engrenagem do mundo
Com o sopro breve do nosso cansaço.
Somos filhos da rotina, discípulos do costume,
Sacerdotes de um templo sem deus.
E ainda assim, há algo em nós que não obedece.
Há um sussurro, discreto como vento em ruínas,
Que insiste em lembrar o indomado.
Esse sussurro é o primeiro som do universo,
A voz anterior ao nome,
A lembrança do que fomos antes do molde.
É ele quem, às vezes, move o corpo
Sem que saibamos por quê.
Nascemos com esse chamado dentro do peito.
Mas o mundo, com seus ruídos e ordens,
Nos ensina a silenciá-lo.
Ensina-nos a confundir o dever com o destino,
A disciplina com a verdade,
O hábito com a alma.
E assim seguimos, cumprindo o papel que nos deram,
Crendo que é o nosso.
Mas há noites em que a ilusão se parte.
A lua nos observa como se nos conhecesse,
E por um instante, o tempo se curva.
O que fomos treinados para ser se desfaz,
O que fomos criados para fazer se apaga,
E resta apenas o que nascemos para recordar:
A liberdade secreta que nenhum mestre ensina.
Então compreendo:
Não somos apenas servos do destino,
Mas fragmentos do próprio enigma.
A cada ato de obediência, uma semente dorme;
A cada lampejo de consciência, ela germina.
E quem sabe toda a vida seja isso,
Um lento aprendizado para desobedecer com beleza,
Até que o espírito se recorde
De que nasceu para ser chama,
Não ferramenta.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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