sábado, 31 de outubro de 2026

A sombra que ficou

 A verdade é que ela foi embora. 
Não houve música, 
Não houve chuva cinematográfica, 
Nem um discurso que merecesse lembrança. 
Só uma porta fechando 
E o barulho ridículo de uma xícara sobre a pia. 
 
A saudade é uma criatura estranha. 
Não chega gritando. 
Liga uma música imaginária, 
Senta-se na cadeira da cozinha 
E espera que você diga alguma coisa. 
Mas eu não digo. 
Aprendi que certas derrotas 
Não precisam de revanche. 
 
Algumas pessoas entram na vida 
Apenas para ensinar 
Que o amor também sabe sair. 
De vez em quando o rosto dela aparece 
Numa esquina da memória. 
Eu olho, dou um leve sorriso, 
E continuo andando. 
Porque o mundo não diminuiu a velocidade 
Para lamentar ninguém. 
 
E ele pode estar certo. 
Há uma paz discreta 
Em aceitar que certas sombras 
Não querem assustar. 
Elas apenas caminham conosco, 
Como velhos companheiros 
Que conhecem nossos silêncios 
Melhor do que nossos nomes. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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