segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Agora vou dizer

Há uma tempestade que vive sob minha pele. 
Ela começa leve, 
Como o sussurro de uma folha rasgando o ar, 
E cresce até se tornar um trovão mudo, 
Batendo contra o teto da minha garganta. 
 
Quando você está perto, 
O mundo se dissolve um pouco, 
As linhas das paredes se desfocam, 
Os sons se afastam, 
O ar fica espesso como água. 
E nesse afogamento lento, 
Eu penso: “agora vou dizer”. 
 
Mas as palavras… ah, as palavras… 
Elas se quebram antes de nascer, 
Como vidros lançados no fundo de um rio, 
E afundam, desaparecendo na lama do meu medo. 
No lugar delas, ficam as imagens: 
O seu rosto iluminado de lado, 
Seus dedos distraídos, 
O jeito que seu corpo parece conversar com o espaço. 
 
Eu fico preso nesse idioma invisível, 
Feito de olhos que se tocam sem encostar, 
De respirações que se encontram no meio do caminho, 
De silêncios que carregam mais peso que discursos. 
 
Penso que, se um dia eu abrir a boca, 
O que sair não será voz, 
Mas uma avalanche, 
Um deslizamento de tudo o que guardei, 
Tão intenso que talvez destrua 
O próprio gesto de querer te dizer. 
 
Então permaneço aqui, 
Com um incêndio aceso atrás das costelas, 
Escrevendo em segredo na página mais funda de mim, 
Confiando que um dia você vai decifrar 
O incêndio pelo calor, 
Mesmo que eu nunca pronuncie o nome dele. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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