segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento II

 O conhecimento começa 
Quando a evidência falha. 
Enquanto tudo parece óbvio, 
A mente dorme em acordo com o mundo. 
 
Pensar é aceitar 
A instabilidade do chão. 
A verdade não é morada, 
É travessia sem mapa. 
 
A filosofia nasce do desconforto: 
Quando a resposta não satisfaz 
E a pergunta passa a doer. 
 
Conhecer não é acumular sentidos, 
É perder o excesso de sentido 
Até que reste apenas o essencial, 
E nem isso seja seguro. 
 
A razão não ilumina tudo; 
Ela recorta a escuridão 
Para que o indizível tenha contorno. 
 
Quem busca saber precisa renunciar 
À proteção da certeza, 
Pois toda ideia amadurecida 
Carrega a semente da própria negação. 
 
O pensamento sério não consola. 
Ele corrói ilusões, 
Mas oferece em troca 
A dignidade de não mentir para si. 
 
A ignorância é circular, 
Fecha-se em si mesma 
E chama isso de paz. 
 
O conhecimento é uma fenda: 
Por ela o mundo se mostra instável, 
E o sujeito, inacabado. 
 
Pensar é um ato sem garantias. 
Ainda assim, 
É o único gesto 
Que nos impede de ser apenas efeito. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário