segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Entre os que partem

 A manhã ergueu suas paredes de poeira, 
E os relógios repetiram uma hora sem dono. 
Nas vitrines, os rostos vestiam o mesmo cansaço, 
Como quem herdou um mapa desenhado por ausentes. 
Só os passos sabiam que o caminho já nos dividira. 
 
Alguns permaneceram conversando com as sombras, 
Catalogando ruínas como se fossem promessas. 
Outros seguiram, não por esperança, 
Mas porque o silêncio também exige movimento, 
E até a dúvida conhece a direção do vento. 
 
Há uma cidade construída dentro de cada homem, 
Com pontes que conduzem apenas à memória. 
Nela, os sinos dobram por decisões adiadas, 
E os corredores devolvem nomes esquecidos, 
Como ecos que nunca encontraram um ouvido. 
 
Separar-se é um verbo antigo. 
Não acontece na estrada, 
Mas no instante em que o coração compreende 
Que nenhuma companhia pode substituir 
A responsabilidade de escolher o próprio destino. 
 
Ao cair da tarde, restam apenas pegadas. 
Nem vencedores, nem vencidos, 
Somente viajantes medindo o infinito 
Com a breve extensão de seus passos, 
Enquanto a noite recolhe, uma a uma, 
As perguntas que deixamos pelo caminho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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