E os relógios repetiram uma hora sem dono.
Nas vitrines, os rostos vestiam o mesmo cansaço,
Como quem herdou um mapa desenhado por ausentes.
Só os passos sabiam que o caminho já nos dividira.
Alguns permaneceram conversando com as sombras,
Catalogando ruínas como se fossem promessas.
Outros seguiram, não por esperança,
Mas porque o silêncio também exige movimento,
E até a dúvida conhece a direção do vento.
Há uma cidade construída dentro de cada homem,
Com pontes que conduzem apenas à memória.
Nela, os sinos dobram por decisões adiadas,
E os corredores devolvem nomes esquecidos,
Como ecos que nunca encontraram um ouvido.
Separar-se é um verbo antigo.
Não acontece na estrada,
Mas no instante em que o coração compreende
Que nenhuma companhia pode substituir
A responsabilidade de escolher o próprio destino.
Ao cair da tarde, restam apenas pegadas.
Nem vencedores, nem vencidos,
Somente viajantes medindo o infinito
Com a breve extensão de seus passos,
Enquanto a noite recolhe, uma a uma,
As perguntas que deixamos pelo caminho.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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