segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Gesto silencioso

 Entre ruínas e sementes caminhamos, 
Com as mãos cheias de ontem e olhos no porvir, 
Há vozes antigas que ainda nos chamam baixo, 
Como raízes que recusam deixar de existir. 
Mas o tempo sopra ventos que não pedem licença, 
E nos empurra para aquilo que ainda não somos, 
Mesmo quando tememos perder o que fomos. 
 
Guardamos memórias como quem guarda fogo, 
Nem tudo que arde ilumina, nem tudo que aquece liberta, 
Há brasas que sustentam, há chamas que consomem. 
O novo chega inquieto, batendo às portas da alma, 
Pedindo espaço entre certezas envelhecidas, 
E nos obriga a rever o que chamávamos verdade, 
Como um espelho que aprende a refletir o desconhecido. 
 
Seguimos, entre soltar e permanecer, 
Como quem atravessa um rio levando apenas o essencial, 
Deixando na margem aquilo que já não nos cabe. 
Não somos os mesmos, e ainda assim somos, 
Feitos de camadas que o tempo não apaga, transforma, 
Pois evoluir é esse gesto silencioso e contínuo, 
Morrer em partes, para que outras possam nascer. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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