Com as mãos cheias de ontem e olhos no porvir,
Há vozes antigas que ainda nos chamam baixo,
Como raízes que recusam deixar de existir.
Mas o tempo sopra ventos que não pedem licença,
E nos empurra para aquilo que ainda não somos,
Mesmo quando tememos perder o que fomos.
Guardamos memórias como quem guarda fogo,
Nem tudo que arde ilumina, nem tudo que aquece liberta,
Há brasas que sustentam, há chamas que consomem.
O novo chega inquieto, batendo às portas da alma,
Pedindo espaço entre certezas envelhecidas,
E nos obriga a rever o que chamávamos verdade,
Como um espelho que aprende a refletir o desconhecido.
Seguimos, entre soltar e permanecer,
Como quem atravessa um rio levando apenas o essencial,
Deixando na margem aquilo que já não nos cabe.
Não somos os mesmos, e ainda assim somos,
Feitos de camadas que o tempo não apaga, transforma,
Pois evoluir é esse gesto silencioso e contínuo,
Morrer em partes, para que outras possam nascer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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