Há uma pergunta que ecoa
Como um pássaro preso dentro do peito.
Por que, na solidão dos meus dias,
Não pensei em voar para longe?
Talvez porque a solidão,
Embora silenciosa, constrói raízes.
Ela se entranha nos hábitos,
Nas horas repetidas,
E nos convence de que ficar
É mais seguro do que partir.
Como se o céu fosse vasto demais
Para quem desaprendeu a abrir as asas.
Ou talvez você tenha pensado, sim,
Mas pensar em voar exige coragem
Para abandonar o chão conhecido.
E há dias em que o peso da própria existência
Faz até o vento parecer distante demais.
A verdade é que nem toda solidão pede fuga.
Algumas pedem escuta.
Pedem que a gente sente ao lado de si mesmo
E compreenda por que o voo parecia impossível.
Porque voar não é apenas partir,
É também acreditar que existe um destino
Que vale o risco de deixar para trás
O que nos prende nesta vida.
E quem sabe, no fundo, você não voou
Porque ainda havia algo em você
Esperando ser descoberto exatamente aí,
No território silencioso
Onde ninguém mais ousou ficar.
Mas agora que a pergunta surgiu,
Talvez seja o primeiro bater de asas.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense




















