Há uma sombra mais densa do que a noite,
Não aquela que nasce da ignorância,
Mas a que floresce na consciência traída.
O sábio que trai a própria verdade
Não cai, ele se dissolve.
Carrega livros como quem carrega ossos,
Mas suas palavras já não têm carne.
Ele conhece o caminho,
Mas vende o mapa por conforto.
O filósofo que vive fora da sua moral
É um templo abandonado.
Colunas ainda de pé,
Mas o altar vazio.
Pensou o mundo com rigor,
Mas não suportou habitar o que pensou.
E então passou a discursar para fora,
Enquanto ruía por dentro.
O nobre que desonra o próprio berço
Não mancha apenas o nome.
Rasga o tempo.
Trai os mortos que o ergueram
E os vivos que nele ainda acreditam.
Seu sangue não é mais linhagem,
É silêncio envergonhado.
Entre todos os monstros possíveis,
Os piores não são os que ignoram o bem,
Mas os que o conhecem,
E ainda assim escolhem abandoná-lo.
Porque há algo mais terrível que a escuridão,
A luz que decide apagar a si mesma.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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