segunda-feira, 30 de março de 2026

Sombras da traição

Há uma sombra mais densa do que a noite, 
Não aquela que nasce da ignorância, 
Mas a que floresce na consciência traída. 
 
O sábio que trai a própria verdade 
Não cai, ele se dissolve. 
Carrega livros como quem carrega ossos, 
Mas suas palavras já não têm carne. 
Ele conhece o caminho, 
Mas vende o mapa por conforto. 
 
O filósofo que vive fora da sua moral 
É um templo abandonado. 
Colunas ainda de pé, 
Mas o altar vazio. 
Pensou o mundo com rigor, 
Mas não suportou habitar o que pensou. 
E então passou a discursar para fora, 
Enquanto ruía por dentro. 
 
O nobre que desonra o próprio berço 
Não mancha apenas o nome. 
Rasga o tempo. 
Trai os mortos que o ergueram 
E os vivos que nele ainda acreditam. 
Seu sangue não é mais linhagem, 
É silêncio envergonhado. 
 
Entre todos os monstros possíveis, 
Os piores não são os que ignoram o bem, 
Mas os que o conhecem, 
E ainda assim escolhem abandoná-lo. 
Porque há algo mais terrível que a escuridão, 
A luz que decide apagar a si mesma. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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