É também deixar pedaços de si
Respirando em outro peito.
Agora tenho que partir,
E essa frase pesa mais
Do que qualquer despedida dita antes,
Porque ela carrega o que não se resolve,
O que fica suspenso entre dois silêncios.
Deixar você aqui
É confiar ao tempo a tarefa impossível
De não apagar o que fomos.
Levo comigo teus gestos pequenos,
Os instantes que ninguém viu,
A memória de um riso que ainda ecoa
Mesmo quando já não estamos no mesmo lugar.
E parto,
Não porque quero,
Mas porque há caminhos que nos chamam
Mesmo quando o coração insiste em ficar.
Se houver reencontro,
Que ele venha como chuva em terra seca,
Sem cobrança, sem medida,
Apenas como quem nunca deixou de ser.
Se não houver,
Que ao menos reste em nós
Essa estranha beleza:
A de termos sido,
Mesmo que por um tempo breve,
Um lugar de abrigo um para o outro.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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