quinta-feira, 26 de março de 2026

Entre dois sentimentos

 Eu caminho por dentro de mim 
Como quem pisa em terra devastada, 
Carregando no peito 
Dois exércitos que não descansam. 
 
O ódio me chama pelo nome com voz de ferro, 
Promete força, 
Promete esquecimento, 
Promete não sentir, 
E por um instante, 
Quase cedo à sua disciplina fria. 
 
Mas o amor… 
Ah, o amor me encontra 
Mesmo quando me escondo de mim, 
Toca minhas ruínas como quem ainda vê morada, 
E insiste, 
Teimoso, quase louco, em me reconstruir. 
 
Minha mente ergue trincheiras, 
Calcula cada passo, 
Diz que sentir é perigo, 
Que lembrar é fraqueza, 
Que sobreviver 
Exige endurecer até não sangrar mais. 
 
Meu coração, no entanto, 
Trai todos os planos. 
Abre as portas que fechei, 
Acende luz onde jurei cultivar apenas sombras. 
 
E eu… 
Eu sou o campo onde tudo isso acontece, 
Sou o grito que não sai, 
Sou a decisão que nunca termina. 
E se há um traidor nesta guerra que me atravessa, 
Eu o reconheço agora. 
É o medo, 
Que me faz recuar do amor 
E me entregar ao ódio 
Como quem escolhe a própria queda 
Disfarçada de proteção. 
 
Mas eu sigo lutando, 
Porque no fundo, bem no fundo, eu sei 
Não é o mais forte que vence em mim, 
É o que eu escolho alimentar no silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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