Não será ele um campo em repouso,
Esperando o sopro invisível do pensamento?
Quando nada acontece,
Algo começa a acontecer por dentro.
É no silêncio do tempo estagnado
Que a mente se desprende
Das margens do útil e do imediato.
O devaneio surge como um rio sem mapa,
Correndo por territórios onde a lógica não vigia,
Onde as ideias
Não precisam pedir licença para existir.
O tédio, então, é um portal discreto.
Quem o atravessa
Abandona o mundo das respostas prontas
E entra no território das perguntas
Que ainda não foram feitas.
No devaneio,
As coisas se tocam de maneiras improváveis,
Memórias esquecidas
Conversam com desejos ainda sem nome,
Imagens se misturam como sonhos acordados,
E aquilo que parecia desconexo
Revela uma harmonia secreta.
Ali nascem as conexões que ninguém mais vê,
Porque não são feitas de evidência,
Mas de intuição,
Não são úteis, mas são essenciais.
E pode ser por isso que o mundo tema o tédio.
Ele desacelera, desorganiza, dissolve a pressa.
Mas quem aprende a habitá-lo descobre
Que dentro dele há uma oficina silenciosa,
Onde o pensamento se reinventa em liberdade.
O tédio é o chão.
O devaneio, a semente.
E as ideias, essas flores estranhas,
Só crescem onde poucos têm coragem de permanecer.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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