Irrompe como fera na noite sem mapa,
Rasga o silêncio com unhas invisíveis,
Fareja o medo escondido no peito,
E chama o poeta como quem chama a presa.
Ele escuta, mesmo quando nega,
Sente o peso de algo que não se contém,
Um sopro quente na nuca da razão,
Um nome antigo sendo repetido,
Como se já fosse destino antes de nascer.
Há versos que vêm como mordida,
Cravam-se na carne da linguagem,
E sangram significados indomáveis,
O poeta escreve com mãos trêmulas,
Sem saber se cria ou se está sendo escrito.
A criatura cresce dentro dele,
Alimenta-se de dúvidas e silêncios,
Alarga as fronteiras do que é suportável,
E cada palavra dita é um risco,
Um passo cego sobre terreno instável.
Mesmo assim ele continua,
Porque parar seria negar o chamado,
Seria calar o grito que o sustenta,
Mesmo que o leve à beira do abismo,
Onde a poesia nasce e também devora.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:
Postar um comentário