domingo, 22 de março de 2026

Quem sou eu para sonhar com ela?

 Quem sou eu, pergunto ao vento gasto, 
Que atravessa as ruas onde me perco? 
Sou verso torto, mal escrito e vasto, 
Ou só mais um sonho em desalinho aberto, 
Um nome esquecido no fundo de um caderno? 
 
Sou poeta, dizem, por falta de destino, 
Ou por excesso de sentir sem medida. 
Carrego no bolso um mundo clandestino, 
Feito de palavras que sangram vida, 
Mesmo quando a vida me vira as costas. 
 
Pobre, sim, de ouro, de teto e de calma, 
Rico apenas do que não se compra: 
Uma inquietação que devora a alma, 
Um amor que cresce mesmo na sombra, 
Uma fome de eternidade que não cessa. 
 
Vagabundo, talvez, mas de estrelas, 
Caminhante de noites sem paradeiro, 
Colecionador de dores tão belas 
Que transformo em verso ligeiro, 
Como quem engana a própria queda. 
 
E quem sou eu para sonhar com ela? 
A mais bonita, não só de rosto, 
Mas de luz que o mundo revela 
Quando sorri, sem saber o gosto 
De ser poema no peito de alguém. 
 
Mas ainda assim, eu ouso existir, 
Entre o nada e o impossível ardente: 
Pois se amar é também insistir, 
Sou tudo aquilo que sente a mente, 
Um ninguém… que a amaria eternamente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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