Como se a doença fosse um código secreto,
Um mapa inscrito na carne em ruínas,
Onde cada célula aprende a ruir para existir
E a dor se torna um tipo torto de salvação.
O vazio é o parasita mais antigo,
Instala-se antes mesmo do primeiro grito,
Alimenta-se de nomes, de rostos, de promessas,
E cresce nos cantos onde a vida hesita,
Como uma sombra que devora a própria luz.
Onde está o desmascaramento da cidade?
As ruas vestem seus disfarces de normalidade,
Mas há rachaduras nos olhos das vitrines,
Um tremor nos passos apressados,
Como se todos soubessem, e negassem.
Uma lívida paranoia flutua no ar,
Feito névoa que ninguém ousa atravessar,
Ela cola na pele, infiltra nos pensamentos,
Torna cada silêncio uma ameaça
E cada respiração, um presságio.
Há fantasmas pelos becos desérticos,
Eles não têm rosto, mas têm memória,
Arrastam correntes de vozes esquecidas,
Ecoam segredos que ninguém quis guardar
E vigiam os vivos como espelhos quebrados.
E há um buraco que dá no fundo do abismo,
Não está na terra, mas no centro,
Um poço sem fundo sob o peito fechado,
Onde tudo o que somos despenca em silêncio
E nunca chega a tocar o fim.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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