sábado, 21 de março de 2026

Pelos becos desérticos

 O vírus é a cura, sussurra o corpo febril, 
Como se a doença fosse um código secreto, 
Um mapa inscrito na carne em ruínas, 
Onde cada célula aprende a ruir para existir 
E a dor se torna um tipo torto de salvação. 
 
O vazio é o parasita mais antigo, 
Instala-se antes mesmo do primeiro grito, 
Alimenta-se de nomes, de rostos, de promessas, 
E cresce nos cantos onde a vida hesita, 
Como uma sombra que devora a própria luz. 
 
Onde está o desmascaramento da cidade? 
As ruas vestem seus disfarces de normalidade, 
Mas há rachaduras nos olhos das vitrines, 
Um tremor nos passos apressados, 
Como se todos soubessem, e negassem. 
 
Uma lívida paranoia flutua no ar, 
Feito névoa que ninguém ousa atravessar, 
Ela cola na pele, infiltra nos pensamentos, 
Torna cada silêncio uma ameaça 
E cada respiração, um presságio. 
 
Há fantasmas pelos becos desérticos, 
Eles não têm rosto, mas têm memória, 
Arrastam correntes de vozes esquecidas, 
Ecoam segredos que ninguém quis guardar 
E vigiam os vivos como espelhos quebrados. 
 
E há um buraco que dá no fundo do abismo, 
Não está na terra, mas no centro, 
Um poço sem fundo sob o peito fechado, 
Onde tudo o que somos despenca em silêncio 
E nunca chega a tocar o fim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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