Não no rosto, mas espalhados na alma,
E caminho atento como quem teme o esquecimento,
Pois sei que o mundo sussurra enquanto passa,
E tudo o que não vejo se perde para sempre.
Eu observo o tremor secreto das coisas pequenas,
A folha que hesita antes de cair,
O olhar que se desfaz antes de ser compreendido,
O silêncio que se esconde entre duas palavras,
Como se ali estivesse a verdade mais nua.
Eu recolho o que ninguém percebe ou guarda,
Os gestos interrompidos, os afetos disfarçados,
A tristeza que aprende a sorrir por costume,
O instante que quase existiu, mas vacilou,
E faço disso a matéria do meu próprio ser.
Nunca descanso, não por medo, mas por espanto,
Porque cada momento é um abismo delicado,
Onde o invisível dança antes de desaparecer,
E eu me inclino, como quem escuta o nada,
Sabendo que o nada também pulsa e chama.
Sou aquele que vigia o mundo em sua fuga,
Que aprende a ouvir o que nunca foi dito,
Que transforma o imperceptível em permanência,
Pois sei que sentir é salvar o instante,
E escrever é impedir que ele morra em silêncio.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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