segunda-feira, 30 de março de 2026

Tenho mil olhos

 Carrego em mim mil olhos acesos, 
Não no rosto, mas espalhados na alma, 
E caminho atento como quem teme o esquecimento, 
Pois sei que o mundo sussurra enquanto passa, 
E tudo o que não vejo se perde para sempre. 
 
Eu observo o tremor secreto das coisas pequenas, 
A folha que hesita antes de cair, 
O olhar que se desfaz antes de ser compreendido, 
O silêncio que se esconde entre duas palavras, 
Como se ali estivesse a verdade mais nua. 
 
Eu recolho o que ninguém percebe ou guarda, 
Os gestos interrompidos, os afetos disfarçados, 
A tristeza que aprende a sorrir por costume, 
O instante que quase existiu, mas vacilou, 
E faço disso a matéria do meu próprio ser. 
 
Nunca descanso, não por medo, mas por espanto, 
Porque cada momento é um abismo delicado, 
Onde o invisível dança antes de desaparecer, 
E eu me inclino, como quem escuta o nada, 
Sabendo que o nada também pulsa e chama. 
 
Sou aquele que vigia o mundo em sua fuga, 
Que aprende a ouvir o que nunca foi dito, 
Que transforma o imperceptível em permanência, 
Pois sei que sentir é salvar o instante, 
E escrever é impedir que ele morra em silêncio. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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