Há um tipo de silêncio que não é ausência,
Mas abrigo.
Querer estar só, às vezes, não nasce da tristeza,
Mas de um excesso,
De vozes, de olhares, de expectativas
Que se acumulam sobre a pele
Como poeira de dias não vividos por inteiro.
É quando o mundo pesa demais
E a alma pede um quarto sem janelas,
Onde possa, enfim, respirar sem ser vista.
A solidão, nesse instante,
Não é vazio, é um retorno.
Como quem tira os sapatos
Depois de uma longa caminhada
E descobre, nos próprios pés,
Um território esquecido.
Estar só é, por vezes,
A única maneira de não desaparecer.
Porque há encontros que nos apagam
E ausências que nos acendem.
E nesse estranho desejo de se afastar de tudo,
Há um gesto quase sagrado:
O de recolher-se
Não para fugir do mundo,
Mas para voltar a si inteiro.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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