sexta-feira, 20 de março de 2026

Quando quero estar só

Há um tipo de silêncio que não é ausência, 
Mas abrigo. 
Querer estar só, às vezes, não nasce da tristeza, 
Mas de um excesso, 
De vozes, de olhares, de expectativas 
Que se acumulam sobre a pele 
Como poeira de dias não vividos por inteiro. 
 
É quando o mundo pesa demais 
E a alma pede um quarto sem janelas, 
Onde possa, enfim, respirar sem ser vista. 
A solidão, nesse instante, 
Não é vazio, é um retorno. 
 
Como quem tira os sapatos 
Depois de uma longa caminhada 
E descobre, nos próprios pés, 
Um território esquecido. 
Estar só é, por vezes, 
A única maneira de não desaparecer. 
 
Porque há encontros que nos apagam 
E ausências que nos acendem. 
E nesse estranho desejo de se afastar de tudo, 
Há um gesto quase sagrado: 
O de recolher-se 
Não para fugir do mundo, 
Mas para voltar a si inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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