Como quem tateia o escuro em busca de um nome,
Teus gestos me vestem de febre e desatino,
Mas em cada toque há um vazio que consome,
Um eco de ausência que em mim se recompõe.
Teus olhos são promessas que nunca repousam,
Ardem como velas em noites sem altar,
E enquanto teus lábios em silêncio me ousam,
Há um abismo manso a nos atravessar,
Como dois corpos que não sabem se encontrar.
Teu riso derrama desejos pela sala,
Feito vinho antigo que ninguém quer guardar,
Embriaga o instante, mas logo se cala,
E no gosto que fica, difícil de apagar,
Há sempre um depois que insiste em me deixar.
Te possuo apenas no intervalo,
No quase, no sopro, no gesto por vir,
És chama que dança sem nunca dar o estalo,
És tudo que chama e se recusa a florir,
Um sonho que insiste em não se cumprir.
Mesmo ao teu lado, permaneço distante,
Como ilha cercada por mares de ilusão,
Teu corpo é presença, teu ser é instante,
E na sedução que me toma a razão,
Sobra, inevitável, a minha solidão.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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