Carrega no peito um tambor de despedidas,
Seus passos ainda lembram o peso das ruínas,
Mas corre, corre como quem desafia o fim,
Como quem planta futuro no chão devastado.
Ele atravessou o caminho mítico da tragédia,
Onde deuses esquecidos sussurram nomes partidos,
Onde o tempo se curva diante do sofrimento antigo,
E cada pedra guarda um grito que não morreu,
Mas dorme sob a pele da memória.
Seus olhos são mapas de incêndios e auroras,
Já viram o mundo romper-se como vidro antigo,
Mas também aprenderam a recolher a luz dispersa,
Como quem junta estrelas caídas no barro,
E as devolve ao céu com mãos feridas.
Agora corre por seus jardins inventados,
Cultivados no território secreto da esperança,
Onde flores nascem apesar do sangue enterrado,
E o vento já não carrega apenas lamentos,
Mas promessas que ainda não têm nome.
Entre árvores que não existiam antes da dor,
Ele escuta vozes que pedem para ser escritas,
Aventuras que crescem como raízes inquietas,
Histórias que insistem em atravessar o silêncio,
Como rios buscando um mar que ainda virá.
E ele escreve, mesmo correndo, com o corpo,
Com o fôlego rasgado e a coragem improvisada,
Cada passo é um verso arrancado do esquecimento,
Cada queda, um poema que se recusa a morrer,
Cada recomeço, uma nova linguagem do mundo.
Filho da guerra, agora semeador de futuros,
Carrega nos ombros o peso e a leveza do que virá,
Seus jardins não negam a tragédia que os gerou,
Mas a transformam em canto, em chama, em caminho,
Onde a vida aprende, enfim, a continuar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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