quarta-feira, 1 de abril de 2026

Por que não pensei em voar para longe?

Há uma pergunta que ecoa 
Como um pássaro preso dentro do peito. 
Por que, na solidão dos meus dias, 
Não pensei em voar para longe? 
 
Talvez porque a solidão, 
Embora silenciosa, constrói raízes. 
Ela se entranha nos hábitos, 
Nas horas repetidas, 
E nos convence de que ficar 
É mais seguro do que partir. 
Como se o céu fosse vasto demais 
Para quem desaprendeu a abrir as asas. 
 
Ou talvez você tenha pensado, sim, 
Mas pensar em voar exige coragem 
Para abandonar o chão conhecido. 
E há dias em que o peso da própria existência 
Faz até o vento parecer distante demais. 
 
A verdade é que nem toda solidão pede fuga. 
Algumas pedem escuta. 
Pedem que a gente sente ao lado de si mesmo 
E compreenda por que o voo parecia impossível. 
 
Porque voar não é apenas partir, 
É também acreditar que existe um destino 
Que vale o risco de deixar para trás 
O que nos prende nesta vida. 
 
E quem sabe, no fundo, você não voou 
Porque ainda havia algo em você 
Esperando ser descoberto exatamente aí, 
No território silencioso 
Onde ninguém mais ousou ficar. 
Mas agora que a pergunta surgiu, 
Talvez seja o primeiro bater de asas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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