terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Não sei deixar de amar você

 Sei fazer muitas coisas. 
Sei calar quando o mundo exige ruído 
E falar quando o silêncio 
Começa a apodrecer por dentro. 
Sei partir sem olhar para trás 
E ficar mesmo quando tudo em mim pede fuga. 
 
Sei ser forte, 
Essa força áspera 
De quem aprende a suportar o peso dos dias 
Como quem carrega sacos de areia contra a enchente. 
Sei endurecer o coração 
Até que ele pareça uma pedra que não sente frio. 
 
Sei esquecer rostos, 
Nomes, promessas ditas na pressa, 
Lugares onde jurei permanecer 
E nunca mais voltei. 
Sei transformar saudade em hábito 
E ausência em rotina. 
 
Mas não sei deixar de amar você. 
 
Não sei ensinar ao meu corpo 
Que o seu nome já não é abrigo. 
Não sei convencer a memória 
De que algumas presenças não moram mais no agora. 
Não sei arrancar esse amor 
Sem sangrar tudo o que ainda me sustenta. 
 
Posso aprender quase tudo: 
A ir embora, 
A sobreviver, 
A seguir adiante como quem atravessa um deserto 
Com os olhos fechados. 
 
Mas deixar de amar você 
Não é uma habilidade. 
É uma amputação. 
E disso, confesso, 
Ainda não sei viver. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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