terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu me recuso a aceitar

Não podemos continuar fingindo que o céu está limpo 
Enquanto o sol vira o rosto para nossa covardia. 
Há fome escondida atrás dos outdoors luminosos, 
Há crianças aprendendo cedo demais o gosto da ausência, 
Há velhos esquecidos nas calçadas da pressa, 
E nós seguimos contando moedas e curtidas 
Como se isso bastasse para salvar o mundo. 

Eu me recuso a aceitar essa anestesia coletiva. 
Quero rasgar o silêncio confortável das salas fechadas, 
Quero devolver nomes aos que viraram estatística, 
Acender consciência onde só existe indiferença, 
Porque toda cidade que abandona os seus frágeis 
Apodrece lentamente por dentro, 
Mesmo quando suas luzes continuam brilhando. 

Ainda há tempo de interromper a queda. 
O sol talvez volte a olhar para nós 
Se aprendermos a repartir o pão e a escuta, 
Se trocarmos o egoísmo por presença verdadeira, 
Se entendermos que ninguém se salva sozinho. 
Toda mudança começa quando alguém decide 
Não ser mais cúmplice da própria omissão. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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