quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sangrar em segredos

O escritor carrega um mundo nos olhos, 
Mas ninguém vê o peso que ele sustenta, 
Sorri enquanto a alma se rasga, 
Pois sente demais o que é de todos, 
E sofre em silêncio o que não lhe pertence. 
 
Há dores que não são suas, mas ardem, 
Como feridas abertas no tempo alheio, 
Crianças chorando em ruas distantes, 
Injustiças sussurradas na noite, 
E tudo encontra morada em seu peito. 
 
Ele escreve para não sucumbir, 
Cada palavra é um grito contido, 
Cada verso, um pedido de respiro, 
Pois o mundo invade sua carne, 
E não há portas que o protejam. 
 
Ser escritor é sangrar em segredo, 
É sentir o invisível do sofrimento, 
É traduzir a dor que não tem voz, 
E oferecer ao papel a própria alma, 
Como quem tenta salvar o indizível. 
 
Mesmo assim ele permanece, 
Teimoso diante do caos humano, 
Pois acredita, mesmo ferido, 
Que dar forma à dor do mundo,
É um modo de não deixá-la vencer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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