A cidade desperta antes da esperança.
As janelas devolvem um céu sem promessas.
Os relógios repetem um idioma que ninguém escuta.
Há passos que atravessam a manhã como sombras.
O dia começa antes que a alma consinta.
Carrego lembranças que não pediram abrigo.
Elas ocupam corredores onde o tempo perdeu o nome.
Cada porta aberta conduz ao mesmo espelho.
A poeira conhece histórias que os homens esqueceram.
O silêncio recolhe aquilo que a voz dispersa.
As praças guardam bancos voltados para ausências.
O vento desloca folhas como páginas sem autor.
As pedras observam a pressa dos viajantes.
Ninguém percebe a lentidão da luz sobre os muros.
Toda chegada contém o desenho de uma partida.
Procuro um sentido entre objetos comuns.
Uma xícara vazia, um poste aceso, um rio distante.
Nada explica, mas tudo sugere.
O invisível habita as menores permanências.
Talvez a verdade caminhe sem anunciar o próprio nome.
Quando a noite recolhe o último ruído,
Resta apenas a respiração do mundo.
Não encontro respostas definitivas.
Aprendo a permanecer diante do mistério.
E sigo, como quem atravessa um horizonte que nunca termina.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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