quarta-feira, 8 de julho de 2026

Horas silenciosas

A cidade desperta antes da esperança. 
As janelas devolvem um céu sem promessas. 
Os relógios repetem um idioma que ninguém escuta. 
Há passos que atravessam a manhã como sombras. 
O dia começa antes que a alma consinta. 
 
Carrego lembranças que não pediram abrigo. 
Elas ocupam corredores onde o tempo perdeu o nome. 
Cada porta aberta conduz ao mesmo espelho. 
A poeira conhece histórias que os homens esqueceram. 
O silêncio recolhe aquilo que a voz dispersa. 
 
As praças guardam bancos voltados para ausências. 
O vento desloca folhas como páginas sem autor. 
As pedras observam a pressa dos viajantes. 
Ninguém percebe a lentidão da luz sobre os muros. 
Toda chegada contém o desenho de uma partida. 
 
Procuro um sentido entre objetos comuns. 
Uma xícara vazia, um poste aceso, um rio distante. 
Nada explica, mas tudo sugere. 
O invisível habita as menores permanências. 
Talvez a verdade caminhe sem anunciar o próprio nome. 
 
Quando a noite recolhe o último ruído, 
Resta apenas a respiração do mundo. 
Não encontro respostas definitivas. 
Aprendo a permanecer diante do mistério. 
E sigo, como quem atravessa um horizonte que nunca termina. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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