Teu olhar me derramou um acorde escuro.
Segui seu rastro por dentro das veias da mente,
Onde o som vira cheiro,
E o cheiro vira verso.
Lá, a poesia renasce em carne fria.
Embebecido pelo teu olhar,
Busquei uma melodia no fundo das sombras.
Ela veio úmida, quase ferida,
E se abriu em poesia dentro de mim
Como quem sangra para se livrar do silêncio.
Beber do teu olhar foi beber um vinho denso,
Que não embriaga, consome.
Da embriaguez nasceu uma música cansada,
E dela, um poema que ardeu até virar cinza.
Tua íris abriu um corredor de ecos.
Entrei, e cada eco era uma nota quebrada.
Quando a última caiu,
Restou apenas o poema,
Com sua respiração irregular e febril.
De ti veio a melodia,
Mas de mim veio o escuro.
No encontro, tudo se tornou poesia,
E poesia é o nome que damos
Ao que não ousamos sentir inteiro.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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