quinta-feira, 5 de junho de 2025

Não sei dizer adeus

 Há partidas que se impõem como o outono: 
Sabemos que virão, mas não sabemos 
Como arrancar as folhas do peito 
Sem sangrar raízes. 
 
Dizer adeus é desenhar com a voz 
O fim de uma casa que ainda mora em nós. 
E eu, tropeçando em sílabas, 
Prefiro o silêncio, 
Ele também chora, 
Mas ninguém percebe. 
 
Você partiu antes que eu aprendesse 
A conjugar o verbo deixar. 
Fiquei com a língua presa 
No passado imperfeito. 
 
Mesmo sabendo que o tempo exige esse adeus, 
Meus gestos ainda guardam portas entreabertas. 
Como se um retorno 
Fosse menos impossível que te esquecer. 
 
Não sei dizer adeus. 
Só sei calar devagar, 
Como quem fecha os olhos 
Esperando que o mundo volte a ser sonho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Nem tudo é loucura

 Nem tudo o que é insano 
Se veste de escuridão. 
Às vezes, usa gravata, 
Pede licença, 
Fala com calma 
E sorri como se fizesse sentido. 
 
Nem toda loucura arranha as paredes. 
Algumas sentam à mesa, 
Dão bom-dia, 
E escondem o caos 
Num gesto de educação. 
 
Há delírios que sabem esperar, 
Que caminham em linha reta 
Só para parecerem normais,
Mas por dentro, 
Desenham espirais com o pensamento. 
 
O absurdo nem sempre berra. 
Às vezes, ele sussurra, 
Fica ali no canto do olho, 
No silêncio de uma decisão 
Que ninguém ousa questionar. 
 
E então, um dia, a máscara cai, 
O tempo se dobra, e percebemos: 
A loucura não chegou agora. 
Ela sempre esteve aqui. 
Só que parecia sensata demais 
Para ser notada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 3 de junho de 2025

Suavemente

Suavemente, 
Como brisa que arde, 
Tua carícia me percorre 
Com a lentidão de quem conhece o abismo. 
 
Nas tuas mãos, malícia 
Domínio e desejo, 
Um jogo antigo 
Onde me perco por vontade. 
 
Prostrado, 
Sem defesas, 
Me ofereço à febre do teu corpo, 
À dança muda que só a pele entende. 
 
Na tua cama, sem sono, 
O tempo se dobra, 
E cada gemido 
É uma promessa dita com os olhos fechados. 
 
Me devoras 
Como quem reza em segredo: 
Profano e sagrado, 
No mesmo beijo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Quando a noite me leva até você

 Quando o mundo se dobra em silêncio 
E as janelas já não refletem nada, 
Meus pensamentos saem descalços, 
Tateando o escuro à tua procura. 
 
A cama é vasta demais sem teu corpo, 
E o lençol, por mais macio, 
Não imita teu toque. 
Só o frio conhece a ausência que você deixa. 
 
Fecho os olhos não para dormir, 
Mas para te ver melhor. 
Ali, onde a realidade cede ao delírio, 
É onde tua boca ainda me chama, 
Onde tua pele ainda me reconhece. 
 
Toda madrugada me devora em segredo. 
O relógio não conta horas, 
Conta suspiros. 
E cada minuto sem você 
É um fio de sombra que me enlaça. 
 
Eu te invento nos meus braços, 
Crio teu cheiro entre os travesseiros, 
Te esculpo em pensamentos urgentes 
Como se o desejo pudesse 
Moldar a carne do impossível. 
 
Teu nome é um eco que não cessa, 
Um feitiço que me prende 
Entre o sonho e a falta. 
Às vezes sussurro baixinho, 
Esperando que, em algum lugar, 
Você ouça. 
 
É à noite que você mais existe. 
Quando tudo dorme, 
Menos esse desejo. 
Essa sede que só você sacia, 
Mesmo estando ausente. 
 
Porque no fundo, amor, 
Não é o sono que me visita, é você. 
E quando me tocas em pensamento, 
Acordo ainda mais desperto, 
Ardendo de silêncio e desejo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 1 de junho de 2025

Esse amor silencioso que sinto

 Há um nó no peito que não se desata, 
Feito laço de silêncio e desejo. 
Amo com a alma escancarada, 
Mas meus lábios são cárceres do segredo. 
 
Vejo teu riso e sou sombra atrás da luz. 
Tua felicidade é meu veneno e minha cura. 
Porque te amo tanto, não te toco. 
Porque te respeito, me desfaço em silêncio. 
 
Carrego teu nome em pensamento, 
Como quem guarda fogo entre as costelas. 
Não posso acender, não posso apagar. 
Apenas arder, inteiro e invisível. 
 
Tu amas outro 
E eu amo em mim tudo que jamais serei contigo. 
Sou testemunha da tua alegria, 
E cúmplice do meu próprio naufrágio. 
 
Quem me dera amar menos, ou te esquecer. 
Mas o amor verdadeiro não pede permissão, 
Nem se esconde: 
Ele apenas aprende a dançar no escuro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Estar perdido

Estar perdido 
É ter o nome arrancado da boca do mundo. 
É caminhar sem sombra, 
Porque até ela se esqueceu de seguir. 
É o corpo intacto e a alma esfolada por dentro.
Perder-se não é ausência de caminho 
É excesso de estradas que sangram os pés. 
Cada escolha feita com fome vira armadilha. 
 
Quem se perde não desaparece 
Apenas deixa de caber no olhar alheio. 
É um naufrágio em terra firme, 
Com os gritos abafados pela rotina dos outros. 
A violência de se estar perdido não grita — sussurra. 
E o sussurro corta mais fundo 
Porque ninguém o ouve. 
 
Estar perdido 
É carregar um coração espancado pelo tempo, 
Um mapa que chora as rotas apagadas, 
Um idioma que ninguém mais entende. 
Perder-se é morrer de sede no meio da água. 
É gritar o próprio nome 
Até ele deixar de soar verdadeiro. 
É olhar no espelho e não pedir socorro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Decadência

Caminho entre destroços de mim 
Com o porte de um desfile. 
O tempo mastigou meus dias 
Com dentes de ouro falso, 
Mas ainda piso firme 
Como quem crê na eternidade de um salto alto. 
 
Meus bolsos estão cheios 
De cinzas, Bilhetes antigos, 
E gargalhadas mal lembradas 
Mas faço deles um estojo 
Para a última faísca de beleza. 
 
O espelho me olha com pena, 
Mas eu retribuo com pose. 
A decadência me veste como um alfaiate fiel: 
Encaixe perfeito nas costuras da desilusão. 
 
As paredes do meu quarto 
Descascaram com charme. 
Até os cupins parecem artistas, 
Esculpindo arabescos nas vigas 
Do que restou de mim. 
 
Já não espero visitas, 
Mas deixo as velas acesas. 
Não por esperança, 
Mas por vaidade. 
 
E se perguntarem se sofri, 
Direi que sim 
Mas sofri como se dança um tango: 
Coluna ereta, olhos fechados, 
E um perfume 
Que disfarça qualquer desmoronamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O eco dos esquecidos

A ideia é soprada nos meus ouvidos, 
Não sei se é sonho ou lembrança, 
Mas queima. 
Vem leve como brisa de outono, 
Mas carrega o peso de séculos calados. 
 
Escrevo. 
Com dedos trêmulos, risco o papel 
Como quem decifra sombras. 
Talvez seja só imaginação 
Ou talvez o eco de um grito 
Que a história abafou em seus porões. 
 
Ouço vozes sem rosto, 
Vozes que se agarram à minha pele, 
Que sussurram nomes, 
Datas, 
Lugares que ninguém mais visita. 
 
São os esquecidos. 
Os que morreram com os olhos abertos, 
Os que tiveram a boca selada, 
Os que arderam em fogueiras sem chamas, 
Os que dançaram em silêncio 
Nos corredores da loucura. 
 
Eles me usam como papel. 
Minha carne é página, 
Meu sangue, tinta, 
Meu medo, trilha sonora. 
 
Não sou autor — sou canal. 
Não crio — evoco. 
Não escrevo — exorcizo. 
 
E a cada linha, 
Um segredo se liberta, 
Uma cicatriz se abre, 
Um tempo se dobra. 
 
A ideia não é minha 
Vem do vento, 
Vem das frestas, 
Vem de um tempo que não vivi. 
Escrevo como quem traduz 
O sussurro dos que não puderam falar. 
 
Escrevo, sim. 
Mas não por escolha. 
Escrevo porque se não o fizer, 
As vozes não me deixarão dormir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Quem ama de novo

A espera tem o gosto do que nunca veio, 
Mas insiste em bater na porta do peito 
Com os dedos ansiosos da esperança. 
É um silêncio povoado de suspiros, 
Onde o coração se senta à beira do tempo 
E reza por alguém que ainda não tem nome. 
 
Mas o medo… 
Ah, o medo costura feridas antigas 
Com linhas invisíveis, 
Fazendo do amor um campo minado 
Onde cada passo treme. 
 
Desejo e temor dormem na mesma cama. 
O primeiro sonha com olhos que brilham, 
O segundo acorda suando 
Ao lembrar do que já sangrou. 
 
Quem ama de novo é um sobrevivente. 
Carrega nos lábios um beijo cauteloso 
E no peito um escudo invisível 
Feito de promessas quebradas. 
 
Esperar é escrever cartas para o vento. 
Amar outra vez… 
É deixar que o vento responda 
Com a voz de alguém 
Que talvez também tema, 
Mas venha. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Nem todo labirinto

 Nem todo labirinto foi feito para escapar. 
Alguns existem apenas para que a gente se perca 
E se descubra perdido. 
 
Há caminhos que se dobram sobre si mesmos, 
Como serpentes que devoram o próprio rastro. 
Ali, a saída é uma ilusão 
Que respira com o tempo. 
 
O pior labirinto é aquele que mora em nós. 
Sem muros, sem portas. 
Apenas espelhos. 
 
Nem todo labirinto quer nos prender. 
Alguns apenas nos convidam 
A permanecer no centro 
Onde o silêncio é rei e a solidão, altar. 
 
Alguns labirintos 
Foram escritos em linhas tortas, 
Sem começo, meio ou fim. 
São poemas trancados em si mesmos, 
Sem leitor, sem resposta. 
 
Quem disse 
Que todo caminho precisa levar a algum lugar? 
Há trilhas que existem só para nos lembrar 
Que o destino não é o ponto final, 
Mas o próprio perder-se. 
 
E se a saída for o próprio desistir? 
Aceitar que certas dores não se vencem 
Se acolhem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 27 de maio de 2025

Invisível

 Nem tudo que é raiz grita alto no vento. 
Há silêncios que sustentam florestas inteiras. 
 
A estrela cadente brilha e some, 
Mas é o sol oculto da manhã 
Que faz a vida florescer. 
 
O diamante repousa no fundo da terra, 
Enquanto o vidro estilhaçado brilha à luz do poste. 
 
Os gestos mais profundos não fazem barulho 
Um olhar, um perdão, 
Um fio de esperança costurado em segredo. 
 
O pavão abre a cauda e rouba os olhos. 
A formiga passa despercebida, 
Mas carrega o mundo nas costas. 
 
O que grita nem sempre tem razão. 
O que cala, às vezes, carrega um universo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Prefiro fugir da zona de conforto

Há uma estranheza em mim 
Que não se dobra ao tempo, 
Nem às doutrinas de vidro 
E plástico que chamam de futuro. 
Eu não sou algoritmo, 
Sou sombra que dança ao redor do fogo 
Que esqueceram. 
 
Não me peçam para caber em suas fórmulas. 
Meu sangue não calcula, queima. 
Minha pele não compartilha, sente. 
Minha alma não tem preço, tem sonhos. 
 
Fugi da zona de conforto 
Como quem abandona um quarto trancado, 
Onde o ar cheira a promessas vencidas. 
Prefiro o frio das madrugadas incertas 
Ao calor do mesmo sofá 
Onde o espírito apodrece. 
 
A modernidade construiu castelos de vidro 
Onde se vive olhando para telas, 
Mas eu prefiro as cavernas ancestrais 
Onde os ecos ainda guardam vozes selvagens. 
 
Não sou revolucionário, 
Sou um exilado de mim mesmo. 
Recuso o cardápio das ideias fáceis, 
Prefiro jejuar com os loucos nas montanhas. 
 
O conforto é uma prisão de seda. 
Bonita, macia, mas prisão. 
A liberdade? 
Morde. Fere. Transforma. 
E eu prefiro a liberdade de pensar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Tão profundo como os mistérios do mar

Há um nome que não ouso dizer, 
Um fogo que arde sob o silêncio, 
Como brasas ocultas sob as ondas 
De um mar que nunca dorme. 
 
É amor — mas não desses que se contam. 
É amor do tipo que se esconde 
Nas cavernas salgadas do peito, 
Onde a luz não toca, 
Mas tudo pulsa. 
 
Carrego-o como um náufrago 
Abraça a última madeira: 
Não por esperança, 
Mas por instinto. 
 
Ele é profundo. 
Mais profundo que os olhos podem ver, 
Mais denso que as correntes que arrastam navios 
E segredos. 
 
Não posso revelá-lo. 
Não por covardia, 
Mas porque as palavras seriam rasas demais 
Para um sentimento que tem o peso do oceano. 
 
E ainda assim, ele me habita, 
Como o sal habita o mar, 
Silencioso, necessário, 
Irremediável. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 25 de maio de 2025

Uma geração que não pensa

 Mesmo o homem que afunda no silêncio 
Carrega o eco do mundo nos ossos. 
Pois o barro de que foi feito não é só seu, 
Mas também da lama 
Pisada por tantos outros pés. 
 
A indiferença dos outros 
É uma doença 
Que se alastra pela alma do tempo. 
E se ele — o triste — não vigia, 
Torna-se espelho daquilo que odeia. 
 
Uma geração que não pensa 
Cava buracos onde o futuro tropeça. 
E o homem triste, mesmo cansado, 
Sabe que o chão também é seu. 
 
Ele se importa porque, 
No fundo, ainda sangra verdade. 
A tristeza é o preço 
De quem não se cegou por completo. 
 
A mácula do mundo não é uma mancha na pele, 
Mas um incêndio nas entranhas. 
E até quem desistiu de correr 
Sente o calor do fogo. 
 
Porque a beleza ainda sussurra, 
Mesmo quando o grito é surdo. 
E o homem triste, ferido de lucidez,
Não pode ignorar 
O que fere tudo que é sagrado. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense 
 

sábado, 24 de maio de 2025

O esconderijo da infância

 Toda a existência, pesada como chumbo, 
Perde o fôlego e o nome 
Quando tropeçamos no esconderijo da infância 
Onde o tempo ainda brinca descalço 
E os medos dormem de barriga cheia. 
 
O mundo inteiro pesa até doer os ombros, 
Mas se desfaz em poeira dourada 
Quando abrimos a porta esquecida 
Do quintal onde enterramos nossos segredos. 
 
A angústia da vida adulta se cala 
No instante em que o vento nos leva 
De volta àquela árvore torta, 
Onde juramos ser eternos. 
 
Quando reencontramos 
O esconderijo da infância, 
Tudo o que parecia urgente 
Se dobra, em silêncio, 
Como roupas guardadas por uma avó ausente. 
 
A existência sufoca como neblina espessa, 
Mas se dissipa 
No instante em que ouvimos, de novo, 
A risada que fomos um dia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense