sexta-feira, 23 de maio de 2025

A leitura é esconderijo

Amo a leitura porque nela encontro portais 
Cada página, uma fresta por onde escapo de mim. 
Lá, não sou feito só de carne e tempo, 
Sou vento, sou abismo, sou o outro. 
 
Leio para adormecer a urgência do mundo, 
Para ouvir o sussurro das palavras antigas 
Que me chamam pelo nome que esqueci. 
Na leitura, lembro quem sou 
E descubro quem ainda posso ser. 
 
Nos livros, o silêncio tem voz, 
E as sombras aprendem a dançar. 
Cada frase acende uma lanterna no escuro, 
E eu sigo, descalço, pelo caminho das letras. 
 
A leitura é meu esconderijo e meu reencontro. 
É onde as dores ganham forma 
E, às vezes, voam para longe. 
É onde abraço ideias 
Como se fossem velhos amigos voltando para casa. 
 
Amo ler porque, entre as palavras, 
Encontro pedaços do mundo 
Que ainda não existiram, 
Mas que já fazem morada em mim. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Sussurrarei meu amor

 Sussurrarei meu amor 
Quando o silêncio pesar mais que as palavras, 
E tua respiração for o único som 
Que mereça companhia. 
 
Direi meu amor ao teu ouvido 
Como quem rega uma flor noturna: 
Sem pressa, sem alarde, 
Apenas o som da alma 
Descendo em pétalas. 
 
Não será no grito da festa 
Nem no brilho do dia, 
Mas na penumbra entre dois olhares, 
Quando tua pele pedir abrigo 
E meu coração for o único idioma. 
 
Sussurrarei meu amor 
Quando o mundo esquecer de existir 
E só restar em mim a coragem 
De tocar tua eternidade com uma palavra. 
 
Há coisas que só os ouvidos compreendem: 
Meu amor será soprado assim, 
Como vento que beija o rio, 
Sem querer ser notado, 
Mas deixando ondas para sempre. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 21 de maio de 2025

O sonho sem despertar

 Há um lugar onde os passos não ecoam, 
Onde a brisa fala em línguas esquecidas, 
E o tempo não sabe morrer. 
 
Sonho-me ali, 
No mesmo limiar de uma porta que não se abre, 
Perseguindo rostos sem nome 
E vozes que sussurram promessas 
Que evaporam ao toque da memória. 
 
É um véu que nunca se rasga, 
Uma névoa onde tudo é quase. 
Quase verdade, quase fuga, 
Quase eu. 
 
Ali, durmo de olhos abertos, 
E a realidade se curva como um espelho gasto. 
Não sei mais se respiro ou apenas imagino o ar, 
Se vivo ou apenas me repito 
Em um ritual sem fim. 
 
Porque há sonhos que não pedem licença, 
Nem têm hora de partir. 
Eles fincam raízes em nossa carne adormecida 
E florescem — eternos, 
No jardim do nunca acordar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Labirinto de memórias

 O tempo não é linha, 
É espiral sussurrante. 
Dobra-se em corredores de ecos, 
Onde cada lembrança é uma porta 
Que se abre para outra que já foi. 
 
No labirinto da memória, 
As paredes são feitas de ausências, 
E o chão, de passos esquecidos. 
Ali, o agora tropeça no ontem 
E o futuro, 
Se esconde em sombras que já passaram. 
 
Cada curva é uma cena, 
Cada encruzilhada, 
Um dilema que nunca se resolveu. 
E mesmo sem saída, 
Caminhamos, 
Porque o coração reconhece os atalhos 
Que a razão esqueceu. 
 
Há relógios quebrados 
Pendurados nas paredes do inconsciente, 
Marcando a hora exata 
Em que uma saudade nasceu. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 20 de maio de 2025

Sem uma só palavra

 Há silêncios que gritam 
Com a força de mil tempestades. 
Quando a alma transborda, 
Palavras se tornam supérfluas. 
Os olhos, às vezes, 
São mais sinceros que a língua. 
Eles não sabem mentir 
Quando o coração já falou. 
 
Não precisei dizer nada. 
Você entendeu 
Porque o que sentimos 
Se entrelaçou no ar entre nós. 
A emoção é linguagem antiga, 
Anterior ao verbo, 
Ao som, ao nome das coisas. 
Ela fala com a pele, 
Com o tremor das mãos. 
 
Quando o peito aperta, 
E o mundo se cala ao redor, 
É a emoção dizendo: 
“Escute-me sem ruídos.” 
Há beijos que dizem "fica", 
Lágrimas que sussurram "sinto", 
Abraços que gritam "aqui estou". 
Tudo isso 
Sem uma só palavra. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 19 de maio de 2025

O universo em mim

Nem todo o universo cabe nas estrelas. 
Há galáxias escondidas no fundo dos olhos, 
Buracos negros no silêncio das memórias, 
Supernovas no estalo de um pensamento. 
 
O infinito também mora em mim 
Nas dobras do coração cansado, 
Nos mapas secretos do que sinto 
E nunca disse. 
 
Olham para o céu buscando respostas, 
Mas às vezes, o cosmos sussurra 
Do lado de dentro 
Em cada batida, 
Em cada sonho não explicado. 
 
Nem todo universo é constelação. 
Há mundos que nascem no escuro da alma, 
Planetas que giram ao redor de lembranças, 
E luas feitas de silêncio e desejo. 
 
Dentro do peito há um espaço sideral. 
Não brilha, não gira, 
Mas pulsa. 
E às vezes, explode 
Como tudo que é vivo e vasto. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 18 de maio de 2025

Caminhe com alegria

Caminhe com alegria, 
Mesmo que a estrada seja de terra. 
Cada passo 
É uma flor que você pode plantar com leveza. 
Seja você o jardim que deseja atravessar. 
 
Semeia o bem com mãos tranquilas, 
E onde houver pedra, nascerá ternura. 
Pois quem vive em paz com a própria alma, 
Anda leve até em meio à tempestade. 
 
O mundo muda devagar, 
Mas quem planta otimismo 
Colhe manhãs mais claras. 
Caminhe sorrindo: 
É sua alma iluminando a trilha. 
 
Deixe pegadas feitas de esperança, 
Abraços feitos de silêncio sincero. 
E que sua consciência seja travesseiro leve 
No fim de cada jornada. 
 
Não espere que o céu esteja limpo, 
Dance mesmo com nuvens. 
A vida retribui quem caminha em paz 
Mesmo sem promessas de sol. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 17 de maio de 2025

Odisseia corriqueira

Entre almofadas e bolsos esquecidos, 
Navega o herói de chinelos rotos, 
Em busca da relíquia miúda, 
A chave, 
Que abre mais que a porta: 
Abre o dia. 
 
A fila serpenteia como dragão de silêncio, 
Bolsos vazios, sacolas sonhando peso. 
Frutas amadurecem 
Como decisões na alma, 
Escolher o tomate mais firme 
É também resistir à pressa. 
 
A colher mergulha no escuro do pó, 
Como um barqueiro tateando o futuro. 
O bule canta. 
E no vapor que dança sobre a xícara, 
Levanto âncoras para mais um dia. 
 
Corpos comprimidos em conchas de metal, 
O ônibus ruge, e partimos 
Não para Ítaca, 
Mas para o escritório da rua de baixo. 
Ali, entre fones de ouvido e olhares cansados, 
Há o épico de sobreviver calado. 
 
Os passos que me trouxeram 
São os mesmos que me levam de volta. 
Na porta, o trinco range um cântico antigo: 
"O herói voltou, 
Com sacolas e dores nas costas." 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 16 de maio de 2025

O mar e seu olhar

Desejo o mar 
Com a sede de quem nunca soube nadar. 
Vejo-o ao longe, vasto e azul, 
Mas meus pés 
Estão presos à terra firme dos impossíveis. 
Assim também é teu olhar: 
Horizonte que me chama, 
Mas não me permite chegar. 
 
Queria o mar, mas o mar não me queria. 
Queria teu amor, 
Mas tua alma já era porto de outra vela. 
Sou barco sem leme, 
Soprado por ventos de ausência, 
Navegando no sal da minha própria espera. 
 
Teu olhar é onda que beija a areia, 
E logo recua. 
Minha vontade, náufraga, 
Morre na linha que separa 
O que se sonha e o que se toca. 
 
Não posso navegar o mar, 
Não posso habitar teu abraço. 
Mas posso ser a poesia do que falta, 
O eco de um amor que nunca foi, 
Mas ainda assim, dói como se fosse. 
 
Te quis como quem deseja o mar: 
Não para cruzá-lo, 
Mas para ser afogado em sua beleza. 
E mesmo longe, mesmo negado, 
Há eternidades que vivem num único olhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Sem memórias

Sem memórias, somos folhas ao vento, 
Sem raiz, sem rumo, sem estação. 
O futuro é uma árvore que cresce 
No húmus dos dias que já se foram. 
 
A lembrança é a chama que aquece o amanhã. 
Sem ela, o tempo se torna frio, 
Um deserto de possibilidades 
Sem pegadas a seguir. 
 
O futuro não nasce do nada 
Ele é filho da saudade, 
Do que ficou gravado 
Nas paredes do coração. 
 
Cada memória é um fio dourado 
Tecendo o manto do porvir. 
Sem esses fios, 
Só restaria o vazio. 
 
Se esquecemos quem fomos, 
Como saberemos quem ser? 
O amanhã é um espelho 
Onde o passado se reconhece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O silêncio de quem não ama

Te espero nas dobras do tempo, 
Onde o vento sussurra teu nome 
Sem nunca ter sido chamado. 
Sou o eco que insiste, 
No vazio que não te comove. 
 
Minha voz é um rio manso 
Que busca tua margem, 
Mas tu és pedra seca, 
Distante, imóvel, 
Surda ao desejo que passa. 
 
Teu riso, que nunca foi meu, 
Brilha no escuro como promessa 
De um sol que jamais amanhece 
No céu do meu peito. 
 
Te amei como se ama o impossível, 
Com a fé dos que rezam ao abismo 
E recebem de volta 
Apenas o próprio grito. 
 
E mesmo assim, 
Te guardo no espaço entre os versos, 
Onde a ausência queima mais 
Do que qualquer presença. 
 
Pois amar quem não ama 
É viver sem morrer, 
É sangrar sem ferida, 
É ser jardim no deserto, 
Belo, inútil e sozinho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 13 de maio de 2025

O perigo em nós

O abismo que mais nos engole 
Não está sob os pés, 
Mas nos olhos, quando já não reconhecem 
O que ali habita. 
 
Há monstros que não rugem, 
Apenas sussurram. 
E nos convencem, dia após dia, 
De que são parte de nós. 
 
A floresta queima por fora, 
Mas o fósforo aceso 
Foi um pensamento 
Que ninguém viu nascer. 
 
Não tema a noite, 
Nem o trovão, 
Nem a fera no mato. 
Tema o silêncio das suas próprias intenções 
Quando ninguém está olhando. 
 
O verdadeiro perigo 
Não vem com presas, 
Mas com promessas. 
E veste o rosto 
Que vemos no espelho. 
 
Dentro de mim mora uma sombra 
Que aprendeu a sorrir. 
E quanto mais a ignoro, 
Mais ela cresce em silêncio. 
 
Às vezes, somos a tempestade 
Que juramos enfrentar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 12 de maio de 2025

A grandeza é solitária

A grandeza caminha só, 
Em trilhas que ninguém ousa seguir. 
É um farol em meio ao nevoeiro 
Ilumina, 
Mas ninguém quer se queimar com sua luz. 
 
Ser grande é ouvir o silêncio 
Onde os outros esperam aplausos. 
É erguer montanhas no espírito 
Enquanto o mundo só vê a poeira nos pés. 
 
Há um frio na altura da grandeza 
Que não aquece com mãos humanas. 
Lá em cima, os ventos são outros 
E a companhia, 
Muitas vezes, apenas o próprio eco. 
 
A alma vasta abriga tempestades 
Que os olhos comuns não compreendem. 
É fácil chamar de orgulho o que é apenas 
Um coração pesado de visões. 
 
A grandeza é um exílio voluntário. 
Não por desprezo, mas por destino. 
Como o cometa que risca os céus: 
Belo, único — e sempre de passagem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não se programa o espírito humano

O espírito humano é como o vento entre as árvores: 
Não se deixa capturar por circuitos, 
Nem se traduz em algoritmos. 
Ele canta, ele se parte, ele sonha. 
E sonhar é coisa que máquina nenhuma sustenta. 
 
Pode-se codificar padrões, 
Mas não o lampejo do olhar diante do inesperado. 
Pode-se mapear emoções, 
Mas nunca o abismo que existe 
Entre o medo e a coragem. 
O espírito humano não se escreve, 
Ele se sente, ele se vive. 
 
Nenhum programa compõe o suspiro de uma perda, 
Nem compreende o silêncio 
Entre duas mãos que se tocam. 
O espírito humano dança 
Em um palco onde a lógica é apenas coadjuvante. 
 
É possível prever movimentos, 
Mas não o gesto súbito de ternura. 
É possível simular presença, 
Mas não a ausência que dilacera. 
O espírito humano é um mistério que desafia 
Até mesmo os deuses do silício. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 11 de maio de 2025

Na noite absoluta

A noite desceu sem nome, 
Espessa como o silêncio entre dois desconhecidos. 
Nela, o tempo se dissolveu em absinto 
Verde, amargo, incendiando as veias 
Com lembranças que nunca aconteceram. 
 
Cada gole era um rito, 
Um afundar lento na vertigem do Eu. 
Ao redor, corpos dançavam sem gravidade, 
Palavras evaporando 
No hálito dos que ousaram olhar para dentro. 
 
Não era festa — era oferenda. 
Ali, entre sombras e fumaça, 
Alguns rasgaram as peles herdadas, 
Escapando das formas ditas humanas. 
 
Tornaram-se deuses de si mesmos, 
Não por poder, mas por abandono: 
Despiram as promessas, os medos, os espelhos, 
E ergueram no lugar um altar de carne e dúvida. 
 
Na noite absoluta, 
Não há juízes, nem salvação 
Apenas a possibilidade brutal 
De existir sem desculpas. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense