Eles invadem.
E o meu gesto mais sincero foi tentar fugir
Como quem fecha as janelas durante a tempestade,
Sem perceber que a chuva já mora dentro.
Desviei-me como quem evita um abismo,
Mas certos abismos aprendem a caminhar.
Onde eu mirava o chão, você ainda estava,
Silenciosa e inevitável,
Como destino disfarçado de acaso.
Fingir indiferença foi minha última defesa.
Ergui muros, inventei distrações, calei impulsos.
Mas havia algo no seu olhar
Que atravessava minhas negações
Como luz atravessa frestas.
Evitar você tornou-se uma forma de vê-la.
Na recusa, sua presença crescia.
No esforço de não olhar,
Meus olhos tornaram-se ainda mais seus,
Reféns de uma ausência impossível.
Há batalhas que se perdem em silêncio.
Ninguém percebe o colapso interno,
Ninguém escuta o ruído da rendição,
Pois tudo acontece no território invisível
Entre dois pares de olhos.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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