quinta-feira, 14 de maio de 2026

O sol virou o rosto

Eu vi o sol virar o rosto da cidade, 
Cansado dos homens vendendo dignidade. 
Nas vitrines, sorridentes cadáveres modernos 
Compravam migalhas em suaves prestações, 
Enquanto chamavam isso de liberdade. 

Caminhei entre profetas de concreto e fumaça, 
Cada um carregando sua fome disfarçada. 
Os ricos falavam de paz nos jornais, 
E os pobres aprendiam silêncio nas filas 
Como quem herda correntes enferrujadas. 

Eu também fui parte desse teatro podre, 
Vesti mentiras para não morrer de frio. 
Sorri em mesas cercadas de hipocrisia 
Enquanto minha alma mastigava ferrugem 
E meu coração apodrecia devagar. 

O sol entorpecido fugiu das avenidas 
Porque até a luz sente náusea do mundo. 
Há crianças dormindo sob pontes esquecidas 
E homens discutindo moral em palácios 
Erguidos sobre ossos e impostos. 

Agora escrevo como quem cospe incêndios. 
Não espero salvação dos céus cansados. 
Aprendi que a sociedade devora os sensíveis 
E transforma sonhos em números sem rosto 
Antes de chamar isso de progresso. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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