segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Sem jamais encontrar morada

 O verdadeiro tolo caminha ereto, 
Como quem nunca caiu dentro de si, 
Traz no peito um silêncio encoberto, 
Um eco que insiste em não existir, 
E chama de paz o que é apenas fuga. 
 
Os deuses o observam de longe, 
Com olhos antigos como o tempo, 
Não punem sua falta de saber, 
Mas o orgulho de não se buscar, 
Como quem fecha os olhos diante do espelho. 
 
Tem um abismo guardado em cada homem, 
Um território de sombras e febres, 
Mas o tolo constrói pontes de mentira, 
Para não atravessar o próprio nome, 
Para não ouvir o que nele se move. 
 
Ele ri alto, como quem vence, 
Mas seu riso não conhece raiz, 
É um som que se perde no vento, 
Sem tocar o chão da verdade, 
Sem jamais encontrar morada. 
 
Dessa forma, pouco a pouco, se desfaz, 
Não por mãos divinas ou destino cruel, 
Mas por negar a própria travessia, 
Por temer o encontro com o que é, 
E viver sem jamais ter sido. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Nenhum comentário:

Postar um comentário