Como quem nunca caiu dentro de si,
Traz no peito um silêncio encoberto,
Um eco que insiste em não existir,
E chama de paz o que é apenas fuga.
Os deuses o observam de longe,
Com olhos antigos como o tempo,
Não punem sua falta de saber,
Mas o orgulho de não se buscar,
Como quem fecha os olhos diante do espelho.
Tem um abismo guardado em cada homem,
Um território de sombras e febres,
Mas o tolo constrói pontes de mentira,
Para não atravessar o próprio nome,
Para não ouvir o que nele se move.
Ele ri alto, como quem vence,
Mas seu riso não conhece raiz,
É um som que se perde no vento,
Sem tocar o chão da verdade,
Sem jamais encontrar morada.
Dessa forma, pouco a pouco, se desfaz,
Não por mãos divinas ou destino cruel,
Mas por negar a própria travessia,
Por temer o encontro com o que é,
E viver sem jamais ter sido.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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