sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O desejo é um ensaio silencioso

O desejo começa sempre no pensamento. 
Antes da pele, há a hipótese. 
Antes do toque, há o mapa. 
O poeta olha, e ao olhar, inventa. 
Projeta no outro possibilidades de intimidade, 
Como se cada gesto contido fosse promessa. 

Nada acontece, mas tudo acontece. 
Porque o corpo imagina com precisão: 
A curva do ombro, 
O calor escondido na nuca, 
O contorno que a roupa esconde 
De propósito. 

O desejo é um ensaio silencioso: 
A mente reencena o encontro, 
Aproxima o rosto, 
Prolonga a respiração, 
Permite que a pele sinta sem sentir. 

Às vezes basta imaginar a voz, 
O timbre sussurrado, 
Para que o corpo responda 
Em segredo. 

No fundo, a fantasia não é ilusão, 
É uma pergunta: 
“O que aconteceria 
Se o impossível consentisse?” 

O real não responde, 
E por isso o desejo cresce. 
Ele vive do intervalo entre intenção e acontecimento, 
Entre o impulso e a contenção. 

E é nesse intervalo 
Que o poeta descobre 
Que desejar não é possuir, 
É imaginar até que a imaginação trema. 

 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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