Antes da pele, há a hipótese.
Antes do toque, há o mapa.
O poeta olha, e ao olhar, inventa.
Projeta no outro possibilidades de intimidade,
Como se cada gesto contido fosse promessa.
Nada acontece, mas tudo acontece.
Porque o corpo imagina com precisão:
A curva do ombro,
O calor escondido na nuca,
O contorno que a roupa esconde
De propósito.
O desejo é um ensaio silencioso:
A mente reencena o encontro,
Aproxima o rosto,
Prolonga a respiração,
Permite que a pele sinta sem sentir.
Às vezes basta imaginar a voz,
O timbre sussurrado,
Para que o corpo responda
Em segredo.
No fundo, a fantasia não é ilusão,
É uma pergunta:
“O que aconteceria
Se o impossível consentisse?”
O real não responde,
E por isso o desejo cresce.
Ele vive do intervalo entre intenção e acontecimento,
Entre o impulso e a contenção.
E é nesse intervalo
Que o poeta descobre
Que desejar não é possuir,
É imaginar até que a imaginação trema.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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