E meu coração vira um bicho ruim.
Não um desses lobos elegantes
Que aparecem nos poemas,
Mas um cão magro de rua,
Cheio de cicatrizes,
Que rosna para a noite
E não sabe por quê.
Estou sentado,
Olhando o copo pela metade,
O tempo consumindo os minutos,
E você aparece de novo.
Não na porta.
Não no telefone.
Não na vida.
Só na minha cabeça,
Que às vezes é um lugar
Mais cruel que o mundo.
Então o coração começa.
Bate forte.
Empurra as costelas.
Quer fugir.
Como se houvesse alguma resposta
Esperando por ele
Do outro lado da cidade,
Do outro lado do tempo,
Ou do outro lado de você.
Mas não há.
Existem apenas os ventiladores girando,
Os cachorros latindo ao longe,
As contas para pagar,
O espelho envelhecendo meu rosto
E essa saudade estúpida
Que insiste em sobreviver.
No fim,
O animal se aquieta.
Deita num canto do peito,
Ofegante,
Derrotado.
Até que eu pense em você outra vez.
E tudo recomece.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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