Que louca condição a dos mortais,
Que correm sem saber para onde vão,
Fazendo da ansiedade profissão,
E dos desejos, cárceres fatais;
Buscando glórias vãs e triunfais,
Entregam-se à soberba e à ambição,
Perdendo a clara luz da percepção
Por sonhos breves, frágeis e banais.
Não veem a flor que nasce no caminho,
Nem ouvem do pardal a voz singela,
Nem notam do crepúsculo o carinho;
A pressa lhes governa a vida inteira,
E a alma, feita escrava da cautela,
Transforma ouro vivo em vil poeira.
Ó século de aflita correria,
Que vende por progresso a distração,
E troca a contemplação pela agonia,
Fazendo do relógio um novo altar!
Quem para e vê descobre, em um só dia,
Mais mundo do que aquele que viveu sem reparar.
Pois a verdade habita o que é pequeno,
Não clama em praça pública ou salão;
Esconde-se no gesto mais sereno,
Na sombra, no silêncio e no chão.
Feliz aquele que, livre do veneno
Da pressa, encontra a vida em sua simples condição.
Sendo assim concluo, com mordaz conselho:
Não sigas tão ligeiro tua estrada;
Que muitas vezes o homem vê no espelho
Apenas a face do nada.
E perde, por viver de sobressalto e anseio,
A beleza que o mundo lhe ofertava calada.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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