sábado, 15 de agosto de 2026

Louca condição

 
Que louca condição a dos mortais, 
Que correm sem saber para onde vão, 
Fazendo da ansiedade profissão, 
E dos desejos, cárceres fatais; 
Buscando glórias vãs e triunfais, 
Entregam-se à soberba e à ambição, 
Perdendo a clara luz da percepção 
Por sonhos breves, frágeis e banais. 
 
Não veem a flor que nasce no caminho, 
Nem ouvem do pardal a voz singela, 
Nem notam do crepúsculo o carinho; 
A pressa lhes governa a vida inteira, 
E a alma, feita escrava da cautela, 
Transforma ouro vivo em vil poeira. 
 
Ó século de aflita correria, 
Que vende por progresso a distração, 
E troca a contemplação pela agonia, 
Fazendo do relógio um novo altar! 
Quem para e vê descobre, em um só dia, 
Mais mundo do que aquele que viveu sem reparar. 
 
Pois a verdade habita o que é pequeno, 
Não clama em praça pública ou salão; 
Esconde-se no gesto mais sereno, 
Na sombra, no silêncio e no chão. 
Feliz aquele que, livre do veneno 
Da pressa, encontra a vida em sua simples condição. 
 
Sendo assim concluo, com mordaz conselho: 
Não sigas tão ligeiro tua estrada; 
Que muitas vezes o homem vê no espelho 
Apenas a face do nada. 
E perde, por viver de sobressalto e anseio, 
A beleza que o mundo lhe ofertava calada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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