sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Elogio moderno à ignorância

 Na praça dos gritos, coroaram o vazio, 
Deram medalhas ao palpite apressado; 
O livro virou suspeito, quase um desvio, 
E o sábio foi chamado de complicado. 
Quem pensa demais, dizem, perdeu o juízo; 
Melhor repetir o refrão mais conveniente. 
A multidão aplaude o eco e despreza o sentido. 
 
Os mercadores de certezas montam seus palanques, 
Vendem respostas antes mesmo das perguntas; 
Distribuem sombras embrulhadas como diamantes 
E colecionam seguidores, almas e escutas. 
A verdade, cansada, espera na esquina, 
Enquanto a mentira desfila vestida de rainha, 
Recebendo flores daqueles que ajuda a enganar. 
 
E assim segue a festa da santa superficialidade, 
Onde a dúvida é pecado e a reflexão, afronta; 
Celebra-se a preguiça travestida de sinceridade, 
E a ignorância, vaidosa, sobe ao palco e aponta. 
Mas o tempo, velho juiz de fala contida, 
Cobra caro por cada mentira convertida em vida: 
Nenhuma civilização sobrevive muito tempo 
Zombando da própria razão. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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