segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A testemunha do que não digo

 A mesa de estudos é mais que um móvel. 
É um refúgio onde o mundo se cala 
E a mente, cansada de errar, procura abrigo nas palavras. 
Entre papéis e silêncios, escrevo para não me perder. 
 
Há noites em que a mesa parece respirar comigo. 
As páginas tremem como lembranças, 
E a luz da lâmpada é a última chama 
Que resiste ao escuro do pensamento. 
 
Estudar é conversar com vozes que já partiram. 
Elas sussurram entre as linhas, 
E eu, sozinho, escuto, 
Sabendo que toda sabedoria tem algo de luto. 
 
Sobre a mesa, o tempo se acumula em pilhas de papel. 
Cada anotação é um traço de quem fui, 
Cada palavra riscada, um erro que ainda me habita. 
O aprendizado é, talvez, uma forma de saudade. 
 
Às vezes, penso que estudo para me lembrar de mim mesmo. 
Porque nas pausas entre uma frase e outra, 
É o coração quem pensa, 
E o pensamento, quem sente. 
 
A mesa é testemunha do que não digo. 
Ali repousam perguntas que não ouso escrever, 
E verdades que só o silêncio compreende. 
 
Não estudo apenas o mundo, 
Mas o que de mim se dissolve nele. 
Cada leitura é um espelho, 
Cada noite, uma travessia para dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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