quinta-feira, 12 de junho de 2025

Um tipo de silêncio

Há um tipo de silêncio 
Que não se encontra no fim dos sons, 
Mas no meio do tumulto 
Um refúgio invisível onde a alma sussurra 
O que nem o mundo ousa escutar. 
 
Enquanto os minutos se desdobram em pressa, 
Busco o instante imóvel entre dois suspiros 
Um abrigo onde o tempo hesita 
E a inquietude se curva diante do vazio. 
 
No caos das vozes e passos apressados, 
Há um silêncio escondido, 
Como um animal tímido entre folhas secas, 
À espera de quem o saiba encontrar. 
 
A inquietude é uma prece sem resposta. 
Mas quem aprende a escutá-la 
Descobre que o silêncio não é ausência, 
É presença profunda demais para palavras. 
 
Busco o silêncio como quem busca o céu 
Num quarto sem janelas. 
Ele está dentro, não fora. 
Não se conquista — se aceita. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 11 de junho de 2025

A ausência revela

A ausência não é o contrário da presença. 
É o que sobra dela. 
Como a marca do corpo no barro, 
Como o eco depois do grito. 
 
Tudo o que amamos, 
Cedo ou tarde, se ausenta, 
E somos forçados a aprender 
A linguagem do que falta. 
 
O tempo, esse escultor invisível, 
Não molda o que vemos, 
Mas o que perdemos. 
Somos feitos tanto de presenças 
Quanto de lacunas. 
 
A ausência revela. 
Mostra o que era essencial 
Sob o véu do hábito. 
Mostra que o outro, 
Mesmo partindo, 
Permanece como espelho 
Do que somos quando amamos. 
 
Sofrer a ausência 
É uma forma de lembrar 
Que já estivemos completos, 
Ou acreditamos estar. 
É a memória recusando-se 
A aceitar a dissolução. 
 
E ainda assim, 
Há algo belo nisso: 
O vazio nos ensina 
A ver com olhos internos, 
A ouvir com o que sobra do silêncio, 
A tocar com o pensamento. 
 
Talvez, no fim, 
Tudo seja ausência. 
O mundo, 
A vida, 
O próprio eu, 
Um intervalo entre dois desconhecidos. 
 
Mas há nobreza 
Em quem sofre a ausência 
Sem perder o gesto de acolher, 
Sem apagar o lume da espera, 
Sem deixar de chamar, 
Mesmo que ninguém responda. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 10 de junho de 2025

Antes do começo

Por que você trava 
Antes do começo, 
Com as mãos cheias de ideias 
E os pés presos no avesso? 
 
É o medo quem sussurra: 
“E se não for suficiente?” 
Ou o eco do perfeccionismo, 
Exigindo o impossível, urgente? 
 
Você sonha alto, 
Mas o chão parece fundo, 
E cada passo adiado 
É um abismo em segundo. 
 
A mente corre à frente, 
Prevê falhas, tropeços, 
E esquece que a beleza 
Nasce dos começos imperfeitos. 
 
Não é falta de força, 
É excesso de cuidado. 
Mas coragem, às vezes, 
É só um erro bem lançado. 
 
Permita-se o rascunho, 
O traço torto, a palavra errada. 
Pois travar é do humano, 
Mas criar… 
É atravessar a estrada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 9 de junho de 2025

O silêncio nas engrenagens

Há um silêncio que range 
Entre os dentes das engrenagens, 
Como se a vida mastigasse devagar os instantes. 
Não é ausência de som, 
Mas uma pausa suspensa 
Entre um suspiro e outro do mundo. 
 
Enquanto a máquina da existência hesita, 
O silêncio mora nos intervalos, 
Feito semente no asfalto, 
Sonhando com raízes 
Que rompem a precisão do ferro. 
 
O barulho do mundo é constante, 
Mas é no quase ruído que nos revelamos, 
Somos mais do que movimento: 
Somos espera, falha, vertigem. 
 
Entre o tic e o tac, 
Há uma eternidade calada. 
Ali, o coração se pergunta: 
Isso é vida, ou apenas o hábito de continuar? 
 
O silêncio nas engrenagens 
Não é defeito, 
É memória, é escuta, 
É a alma da máquina que por um instante 
Lembra que também já foi humana. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

É preciso andar devagar em Cáceres

Cáceres desperta devagar, 
Como quem sonha ainda de olhos abertos. 
Suas ruas são murmúrios do tempo, 
E o rio Paraguai — espelho antigo, 
Carrega segredos em suas águas largas. 
 
Na beira do majestoso Rio Paraguai, 
A cidade respira um calor de infância, 
Com alguns quintais, ainda, 
Cheios de cajus e silêncios, 
Onde o vento conta histórias 
De barcos, de santos e de assombrações. 
 
Cáceres tem um jeito de olhar para gente 
Como quem já sabe o que escondemos. 
Entre igrejas de pedra e árvores centenárias, 
Ela escuta — paciente, 
O que nem dizemos em voz alta. 
 
Ali, o pôr do sol é uma cerimônia. 
Pintura viva sobre águas calmas, 
Onde garças pousam como se fossem canções. 
A cidade toda vira oração, 
Feito um salmo entoado em silêncio. 
 
É preciso andar devagar em Cáceres, 
Pois o tempo se dobra em suas esquinas. 
E quem corre, perde a chance 
De ouvir o canto dos tuiuius, 
O deslizar suave dos jacarés 
Ou ver o rio sorrindo à lua. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 8 de junho de 2025

Por mil anos

 Uma única conversa com o intangível 
Vale mais do que todas as certezas 
Ditas em voz alta. 
Ali, no intervalo entre o silêncio e o mistério, 
Você tocou o que não tem nome, 
E foi tocado de volta. 
 
Palavras não foram necessárias. 
A presença bastou: um sussurro 
Feito de vento, sombra e memória. 
 
Por isso, durará mil anos. 
E você também, 
Não no corpo, mas no eco. 
Não no tempo, mas na lembrança 
Que a própria eternidade guarda de ti. 
 
Porque quem fala com o invisível 
Torna-se visível ao que está além. 
E o que está além, 
A percepção, 
Nunca esquece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 7 de junho de 2025

De olhos bem fechados

 Dormem de olhos abertos, mas não veem. 
O mundo queima em silêncio e eles caminham 
Como quem atravessa um campo em flor, 
Sem saber que pisa ossos. 
 
Há os que fecham os olhos não por medo, 
Mas por cansaço. 
Cegaram-se de tanto ver, 
E agora vivem de costas para o horizonte, 
Cultivando sombras em vez de jardins. 
 
Fecharam os olhos ao real 
E pintaram janelas no escuro. 
Chamam isso de paz, 
Mas é apenas um pacto com a ilusão. 
 
Alguns não veem o mundo 
Porque o mundo os feriu primeiro. 
Cobriram os olhos com véus de indiferença, 
E chamaram isso de sobrevivência. 
 
Olhos fechados, ouvidos mudos, 
Almas adormecidas em plena luz. 
São como estátuas à beira do abismo: 
Belas, imóveis, prestes a cair. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tão sozinho

 Tão sozinho, 
Descobre que o eco é sua própria voz, 
E nela, um mundo inteiro escondido.
Na ausência de todos, 
Um espelho: 
O silêncio revela o que os gritos escondiam. 
 
A solidão não é vácuo, 
Mas ventre. 
Ali nasce o que em ti dormia. 
 
Quando o mundo se cala, 
Te escutas. 
E, enfim, entendes o nome que nunca disseram. 
Perdido entre sombras, 
Teu próprio passo te guia. 
E descobres que és estrada e viajante. 
 
Tão sozinho, 
Já não és um entre muitos, 
És inteiro entre ecos. 
Na solidão mais funda, 
O susto: 
Você ainda respira. 
E é suficiente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 6 de junho de 2025

O amor não responde perguntas

 O amor não segue trilhas. 
Ele se perde de propósito, 
Desenha mapas em corações distraídos 
E planta jardins onde antes só havia ruínas. 
 
Há encontros que parecem erro, 
Mas na alma acendem uma vela 
Que nenhuma lógica apaga. 
 
Às vezes, o amor chega com passos de silêncio, 
Como quem não quer ficar, 
E fica. 
 
O coração não entende de tempo. 
Ele se move em compassos próprios, 
Buscando o outro em mil rostos, 
Até reconhecer, num instante, 
Aquilo que sempre soube. 
 
É preciso se perder para amar. 
O amor não aceita guias, 
Desfaz rotas, vira o mundo ao avesso 
E nos costura de novo,
Com a linha da surpresa. 
 
O amor não responde perguntas. 
Ele é a pergunta que ecoa, 
Queima devagar e, ainda assim, 
Nos aquece por dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Não sei dizer adeus

 Há partidas que se impõem como o outono: 
Sabemos que virão, mas não sabemos 
Como arrancar as folhas do peito 
Sem sangrar raízes. 
 
Dizer adeus é desenhar com a voz 
O fim de uma casa que ainda mora em nós. 
E eu, tropeçando em sílabas, 
Prefiro o silêncio, 
Ele também chora, 
Mas ninguém percebe. 
 
Você partiu antes que eu aprendesse 
A conjugar o verbo deixar. 
Fiquei com a língua presa 
No passado imperfeito. 
 
Mesmo sabendo que o tempo exige esse adeus, 
Meus gestos ainda guardam portas entreabertas. 
Como se um retorno 
Fosse menos impossível que te esquecer. 
 
Não sei dizer adeus. 
Só sei calar devagar, 
Como quem fecha os olhos 
Esperando que o mundo volte a ser sonho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Nem tudo é loucura

 Nem tudo o que é insano 
Se veste de escuridão. 
Às vezes, usa gravata, 
Pede licença, 
Fala com calma 
E sorri como se fizesse sentido. 
 
Nem toda loucura arranha as paredes. 
Algumas sentam à mesa, 
Dão bom-dia, 
E escondem o caos 
Num gesto de educação. 
 
Há delírios que sabem esperar, 
Que caminham em linha reta 
Só para parecerem normais,
Mas por dentro, 
Desenham espirais com o pensamento. 
 
O absurdo nem sempre berra. 
Às vezes, ele sussurra, 
Fica ali no canto do olho, 
No silêncio de uma decisão 
Que ninguém ousa questionar. 
 
E então, um dia, a máscara cai, 
O tempo se dobra, e percebemos: 
A loucura não chegou agora. 
Ela sempre esteve aqui. 
Só que parecia sensata demais 
Para ser notada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 3 de junho de 2025

Suavemente

Suavemente, 
Como brisa que arde, 
Tua carícia me percorre 
Com a lentidão de quem conhece o abismo. 
 
Nas tuas mãos, malícia 
Domínio e desejo, 
Um jogo antigo 
Onde me perco por vontade. 
 
Prostrado, 
Sem defesas, 
Me ofereço à febre do teu corpo, 
À dança muda que só a pele entende. 
 
Na tua cama, sem sono, 
O tempo se dobra, 
E cada gemido 
É uma promessa dita com os olhos fechados. 
 
Me devoras 
Como quem reza em segredo: 
Profano e sagrado, 
No mesmo beijo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Quando a noite me leva até você

 Quando o mundo se dobra em silêncio 
E as janelas já não refletem nada, 
Meus pensamentos saem descalços, 
Tateando o escuro à tua procura. 
 
A cama é vasta demais sem teu corpo, 
E o lençol, por mais macio, 
Não imita teu toque. 
Só o frio conhece a ausência que você deixa. 
 
Fecho os olhos não para dormir, 
Mas para te ver melhor. 
Ali, onde a realidade cede ao delírio, 
É onde tua boca ainda me chama, 
Onde tua pele ainda me reconhece. 
 
Toda madrugada me devora em segredo. 
O relógio não conta horas, 
Conta suspiros. 
E cada minuto sem você 
É um fio de sombra que me enlaça. 
 
Eu te invento nos meus braços, 
Crio teu cheiro entre os travesseiros, 
Te esculpo em pensamentos urgentes 
Como se o desejo pudesse 
Moldar a carne do impossível. 
 
Teu nome é um eco que não cessa, 
Um feitiço que me prende 
Entre o sonho e a falta. 
Às vezes sussurro baixinho, 
Esperando que, em algum lugar, 
Você ouça. 
 
É à noite que você mais existe. 
Quando tudo dorme, 
Menos esse desejo. 
Essa sede que só você sacia, 
Mesmo estando ausente. 
 
Porque no fundo, amor, 
Não é o sono que me visita, é você. 
E quando me tocas em pensamento, 
Acordo ainda mais desperto, 
Ardendo de silêncio e desejo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 1 de junho de 2025

Esse amor silencioso que sinto

 Há um nó no peito que não se desata, 
Feito laço de silêncio e desejo. 
Amo com a alma escancarada, 
Mas meus lábios são cárceres do segredo. 
 
Vejo teu riso e sou sombra atrás da luz. 
Tua felicidade é meu veneno e minha cura. 
Porque te amo tanto, não te toco. 
Porque te respeito, me desfaço em silêncio. 
 
Carrego teu nome em pensamento, 
Como quem guarda fogo entre as costelas. 
Não posso acender, não posso apagar. 
Apenas arder, inteiro e invisível. 
 
Tu amas outro 
E eu amo em mim tudo que jamais serei contigo. 
Sou testemunha da tua alegria, 
E cúmplice do meu próprio naufrágio. 
 
Quem me dera amar menos, ou te esquecer. 
Mas o amor verdadeiro não pede permissão, 
Nem se esconde: 
Ele apenas aprende a dançar no escuro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Estar perdido

Estar perdido 
É ter o nome arrancado da boca do mundo. 
É caminhar sem sombra, 
Porque até ela se esqueceu de seguir. 
É o corpo intacto e a alma esfolada por dentro.
Perder-se não é ausência de caminho 
É excesso de estradas que sangram os pés. 
Cada escolha feita com fome vira armadilha. 
 
Quem se perde não desaparece 
Apenas deixa de caber no olhar alheio. 
É um naufrágio em terra firme, 
Com os gritos abafados pela rotina dos outros. 
A violência de se estar perdido não grita — sussurra. 
E o sussurro corta mais fundo 
Porque ninguém o ouve. 
 
Estar perdido 
É carregar um coração espancado pelo tempo, 
Um mapa que chora as rotas apagadas, 
Um idioma que ninguém mais entende. 
Perder-se é morrer de sede no meio da água. 
É gritar o próprio nome 
Até ele deixar de soar verdadeiro. 
É olhar no espelho e não pedir socorro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense