sábado, 10 de maio de 2025

Por aqui

Sempre é um caminho sem pegadas, 
Onde o chão parece novo, mas já foi pisado 
Por sombras que não lembramos. 
É uma estrada de vento, 
Com viajantes que passam calados, 
Cada um levando nos olhos 
Um mapa que não mostra saída. 
 
Nas margens, só o sussurro das dúvidas, 
Penduradas como névoa nas árvores secas. 
O tempo ali não caminha — ele paira, 
Feito poeira que hesita entre cair ou voar. 
 
Sempre é ausência de chegada, 
É promessa que se desmancha no horizonte. 
E ainda assim, seguimos. 
Porque há silêncio demais para voltar. 
 
Por aqui, tudo parece cair aos poucos, 
Feito folha seca que não encontra mais outono, 
Feito casa velha que range mais do que abriga. 
As cores perderam o nome, 
Os ventos já não contam histórias, 
E até o silêncio soa cansado. 
 
As paredes têm ouvidos, 
Mas já desistiram de escutar. 
 O tempo se arrasta como quem não quer chegar, 
E os passos, que antes sabiam para onde ir, 
Agora apenas rondam os mesmos vazios. 
 
Há uma beleza estranha na decadência, 
Um tipo de verdade que só floresce na ruína. 
Talvez seja aqui, 
Neste fim de tudo, 
Que algo, ainda que pequeno, 
Possa começar a nascer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 9 de maio de 2025

O rosto nu do coração

No redemoinho da dor, 
Quando tudo desaba em silêncio, 
É ali que o coração se firma, 
Não por ausência de medo, 
Mas por saber que resistir 
Também é amar a si. 
 
Entre os escombros da calma perdida, 
Uma centelha pulsa: 
Não é desespero, 
É a força antiga 
Do que se recusa a morrer. 
 
O caos não destrói, 
Ele revela. 
Tira as máscaras do mundo 
E mostra o rosto nu do coração 
Aprendendo a bater mais forte. 
 
Às vezes, o coração só aprende a ser vasto 
Quando a vida o quebra em mil pedaços. 
Cada caco é um novo ritmo, 
Cada dor, uma batida. 
 
No caos, o coração não se esconde, 
Ele cresce. 
Como raiz que rasga pedra 
Em busca de água 
Que nunca deixou de existir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 8 de maio de 2025

O que buscas?

 O que buscas no mundo, 
Com olhos famintos de horizonte, 
Talvez seja apenas o eco 
Do que em ti já pulsa em silêncio. 
 
Escavas montanhas, cruzas mares, 
Como se a resposta fosse além. 
Mas e se o mapa sempre esteve 
Gravado nas tuas próprias veias? 
 
Não há chave mais precisa 
Do que o teu próprio peito. 
O que te falta no espelho 
É o que sempre esteve inteiro. 
 
Procura o mistério nas estrelas, 
Mas é no escuro dos teus pensamentos 
Que a constelação se revela. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Lançamento do livro "Pensamentos Poéticos" de Odair José da Silva

    Nesta terça-feira 06 de maio de 2025 aconteceu o lançamento do livro "Pensamentos Poéticos" do autor Odair José, Poeta Cacerense. 
 
    O evento ocorreu na VIII Semana de Letras da Unemat na Cidade Universitária em Cáceres, MT. 
 
    "Pensamentos Poéticos" é um mergulho em emoções cruas, instantes de beleza e reflexões que tocam onde as palavras quase não alcançam. 
 
    Feito para ser lido com calma — ou devorado de uma vez só. 
 
    Com uma escrita sensível, intensa e repleta de lirismo, o autor convida o leitor a percorrer caminhos internos, refletir sobre os sentimentos mais íntimos e enxergar a beleza que habita até mesmo nas sombras da existência. 
 
    "Pensamentos Poéticos" é mais do que um livro — é um espelho da alma, uma jornada entre versos, silêncios e descobertas. 
 
    Disponível nas principais plataformas digitais e no link abaixo!
 
 
 














 
 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Dor sem palavras

Mesmo no silêncio, 
A dor tem voz. 
Ecoa nas pausas, 
Grita nos gestos, 
Sangra nos olhos 
De quem não diz. 
 
A boca se cala, 
Mas o corpo delata. 
Há dores que falam 
Com mais fúria 
Que qualquer grito. 
 
Mesmo sem palavras, 
A dor se escreve no ar, 
Em olhares partidos, 
Em respirações pesadas, 
Em presenças ausentes. 
 
Há uma linguagem 
Que não precisa som. 
A dor aprendeu a usá-la 
Melhor do que ninguém. 
 
Silêncio não é ausência, 
Às vezes é palco, 
Onde a dor dança sozinha, 
Sem plateia, 
Mas sob holofotes invisíveis. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 4 de maio de 2025

O último suspiro

O último suspiro 
Não é apenas ar, 
É a alma que sussurra 
O que a boca nunca teve coragem de dizer. 
Há segredos que só o silêncio entende. 
E o último suspiro… 
É o único que fala com o tempo. 
 
O fim não pede desculpas. 
Mas o último sopro tenta, 
Como se pudesse costurar com vento 
As palavras que faltaram. 
O último suspiro é o poema mais sincero: 
Não tem rima, nem verso, 
Mas tem verdade. 
 
Quem ouve o último suspiro 
Carrega uma herança invisível: 
O peso do não dito, 
E a dádiva de continuar. 
O último suspiro não procura plateia. 
Ele dança sozinho, 
Num compasso que só o destino escuta. 
 
Quando o peito solta o último ar, 
Não é o corpo que parte, 
É a lembrança que decide em quem vai morar. 
Às vezes, o último suspiro 
É uma pergunta lançada ao escuro, 
Na esperança de que alguém, um dia, 
Responda com vida. 
 
Não há mentira no último suspiro. 
É o único instante em que o ser 
Deixa de fingir que não tem medo. 
Alguns partem com um grito, 
Outros com um sopro, 
Mas há quem transforme o último suspiro 
Em uma semente, 
E floresça dentro de quem fica. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Viver é mais que existir

Somos a ponta do iceberg 
Dos nossos próprios mistérios. 
Cada gesto carrega mil ecos 
De ancestrais que jamais conheceremos. 
Viver não é repetir, 
É inventar o verbo de si mesmo. 
Pensamos ser pequenos, 
Mas somos feitos de eras, 
De abismos, de constelações caladas. 
Viver não é coisa comum, 
É o espanto de um milagre disfarçado de rotina. 
 
Há em nós mais mares do que margens. 
Mais céu do que chão. 
Pensar é limitar-se, 
Viver é desobedecer os limites do pensamento. 
Não somos só carne, nem só ideia. 
Somos a travessia 
Entre o que se pode tocar e o que escapa ao nome. 
E viver é essa dança 
Entre o invisível e o inevitável. 
 
A vida não é um objeto. 
É um campo aberto, onde o vento passa, 
Onde o tempo se curva, 
Onde nós — sementes de algo maior — 
Aprendemos a florir mesmo sem entender. 
Somos muito mais do que aquilo que conseguimos lembrar. 
Há em nós uma memória da luz antes da forma, 
Um eco antigo que insiste em sonhar 
Mesmo quando esquecemos como dormir. 
 
A mente constrói muros, 
Mas a alma só conhece horizontes. 
Viver é atravessar as paredes que pensamos serem o fim 
E descobrir que o infinito começa dentro de nós. 
Há silêncios dentro de nós 
Que falam mais alto que palavras. 
E nesses silêncios, 
Descobrimos que viver é escutar 
O que o mundo ainda não teve coragem de dizer. 
 
Não somos apenas os papéis que desempenhamos. 
Somos também as pausas, os desvios, 
As perguntas sem resposta 
Que nos atravessam no meio da noite. 
Viver não é apenas respirar. 
É permitir-se ser atravessado pelo tempo, 
É aceitar que mudar de forma é parte do caminho. 
A borboleta não se lembra da lagarta, 
Mas ambas vivem no mesmo mistério. 
 
Dentro de cada um, 
Mora um universo escondido. 
E viver é, dia após dia, 
Abrir as cortinas dessa galáxia íntima, 
E dançar com as estrelas que só nós conseguimos ver. 
O pensamento tenta nos conter, 
Mas a vida transborda,
Ela sangra beleza pelas frestas, 
Ela explode em flor onde só havia ruína. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 3 de maio de 2025

Saudade, ciúme e desespero

Hoje o vento passou com teu cheiro. 
Fiquei imóvel, como quem tenta 
Abraçar uma lembrança sem deixá-la fugir. 
A saudade é um fantasma gentil: 
Não assusta, mas aperta. 
 
Vi teus olhos se perderem em outro sorriso. 
Fingi que não doeu. 
Mas por dentro, um incêndio de silêncio 
Devorava minha calma. 
Não quero te prender, 
Só não sei ser mundo sem teu centro. 
 
Tem dias em que amar-te 
Parece um labirinto sem saída. 
O corpo quer, a alma grita, 
Mas o mundo ergue muros invisíveis. 
Queria fugir contigo. 
Ou então desaparecer 
Só para não ter que escolher 
Entre o certo e o teu abraço. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Febre mansa

Teus sorrisos me despem mais 
Do que qualquer carícia. 
E eu, bobo, me deixo levar
Como se teus olhos fossem um lençol 
E teu nome, 
Um feitiço que só funciona à meia-noite. 
 
Ainda sinto teus dedos 
Entre as páginas do meu corpo. 
Leste-me sem pressa, 
Como quem sabe que certas histórias 
Só se entendem com a pele. 
 
Tua ausência é fogo lento. 
Me acostumei a queimar devagar, 
Como quem segura o ar 
Só para lembrar do gosto da tua respiração. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Esperança e vontade

 Mesmo quando tudo pesa, 
Guardo tua última carta dobrada no bolso. 
A tinta quase apagou, 
Mas tua letra ainda me chama pelo nome. 
E isso basta. 
Para acreditar, para seguir, 
Para sorrir mesmo no escuro. 
 
Às vezes penso em bater à tua porta 
Sem dizer nada — 
Só deixar o corpo falar o que a boca teme. 
Mas volto. 
Porque te querer é também te preservar. 
Mesmo quando tudo em mim te chama. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 2 de maio de 2025

O que realmente importa?

    O dia mal começou e já tem bilhete no grupo da escola, recado da coordenação, mudança na grade, aluno esperando explicação, pai pedindo retorno, e a tal planilha que precisa ser entregue “com urgência”. 

    Você respira fundo, encara a lista de pendências e mergulha. Corrige provas no intervalo, responde mensagem na hora do almoço, prepara aula de última hora. Resolve tudo. Ou quase tudo. 

    Mas lá no fundo, sabe que mais uma vez o importante ficou para depois. A conversa individual com aquele aluno mais quieto. A ideia nova de projeto que você teve no banho e que parecia incrível, mas ficou para depois porque o tempo apertou. O café com os colegas que faz falta. O tempo para estudar, para criar, para lembrar por que você ama ensinar. 

    Porque ser professor virou também ser bombeiro. Apagar incêndios o tempo todo — e nem sempre tem água para tanto fogo. E o que é essencial, aquilo que de fato transforma a educação — o vínculo, o cuidado, a escuta, a criação — fica espremido entre uma urgência e outra. 

    Mas é isso: o urgente grita. O importante sussurra. E se a gente não escuta, ele vai embora. 

    A pergunta que fica é: quanto daquilo que realmente faz sentido estamos deixando para depois? 

    Porque, no fim das contas, ensinar é mais do que cumprir prazos. É estar inteiro. E a gente só consegue estar inteiro quando o que importa tem espaço para florescer. 

Crônica: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O tempo é espelho

O tempo, dizem, é linear. 
Mas há olhos que o veem como um círculo viciado, 
Um eterno retorno de silêncios disfarçados de novidade. 
Para esses olhos, o tempo não é estrada — 
É espelho. 
 
A mentira do tempo não está nos segundos, 
Mas na ideia de progresso. 
Quem vê além do tic-tac 
Percebe: 
Crescer, envelhecer, seguir — 
São apenas formas sofisticadas de esquecer o agora. 
 
O olhar que desconfia do tempo 
Sabe que passado e futuro são invenções da memória. 
Só o instante existe, 
Mas é tão breve que precisamos mentir para suportá-lo. 
 
Há olhos que veem as rugas como mapas, 
Não de onde estivemos, 
Mas de todas as versões que jamais seremos. 
O tempo, ali, é só ausência vestida de pele. 
 
O tempo é uma linguagem que aprendemos a temer. 
Mas quem vê sua mentira, 
Fala outra língua — 
Uma feita de pausas, 
De eternidades contidas num só olhar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 30 de abril de 2025

[Fragmento III]

Hoje sonhei que éramos livres. 
Andávamos de mãos dadas pelas ruas, 
Sem medo, sem pressa, 
Como quem não deve desculpas ao tempo. 
 
Acordei com o coração sorrindo. 
Ainda preso, mas sorrindo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

[Fragmento II]

Não preciso de testemunhas. 
Teu riso é prova suficiente 
De que o amor existe — 
Mesmo onde disseram que não devia crescer. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Não é rebeldia

 Eu vou ser sincero mais uma vez 
Sobre esse sentimento escondido. 
Quando amar é segredo, 
Teu nome é meu silêncio mais doce. 
Guardo tua voz entre as costelas, 
Como se fosse música proibida 
Que só o coração escuta. 
 
Quando tento resistir a mim mesmo, 
Minha esperança veste tua pele. 
Caminho entre espinhos, 
Mas vejo flores 
Onde teus olhos me lembram de quem sou. 
 
Não é rebeldia, é cuidado. 
Não é pecado, é poesia. 
Amar-te em silêncio é como colher o orvalho — 
Pequeno, frágil, 
Mas capaz de alimentar um jardim inteiro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense