segunda-feira, 9 de junho de 2025

É preciso andar devagar em Cáceres

Cáceres desperta devagar, 
Como quem sonha ainda de olhos abertos. 
Suas ruas são murmúrios do tempo, 
E o rio Paraguai — espelho antigo, 
Carrega segredos em suas águas largas. 
 
Na beira do majestoso Rio Paraguai, 
A cidade respira um calor de infância, 
Com alguns quintais, ainda, 
Cheios de cajus e silêncios, 
Onde o vento conta histórias 
De barcos, de santos e de assombrações. 
 
Cáceres tem um jeito de olhar para gente 
Como quem já sabe o que escondemos. 
Entre igrejas de pedra e árvores centenárias, 
Ela escuta — paciente, 
O que nem dizemos em voz alta. 
 
Ali, o pôr do sol é uma cerimônia. 
Pintura viva sobre águas calmas, 
Onde garças pousam como se fossem canções. 
A cidade toda vira oração, 
Feito um salmo entoado em silêncio. 
 
É preciso andar devagar em Cáceres, 
Pois o tempo se dobra em suas esquinas. 
E quem corre, perde a chance 
De ouvir o canto dos tuiuius, 
O deslizar suave dos jacarés 
Ou ver o rio sorrindo à lua. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 8 de junho de 2025

Por mil anos

 Uma única conversa com o intangível 
Vale mais do que todas as certezas 
Ditas em voz alta. 
Ali, no intervalo entre o silêncio e o mistério, 
Você tocou o que não tem nome, 
E foi tocado de volta. 
 
Palavras não foram necessárias. 
A presença bastou: um sussurro 
Feito de vento, sombra e memória. 
 
Por isso, durará mil anos. 
E você também, 
Não no corpo, mas no eco. 
Não no tempo, mas na lembrança 
Que a própria eternidade guarda de ti. 
 
Porque quem fala com o invisível 
Torna-se visível ao que está além. 
E o que está além, 
A percepção, 
Nunca esquece. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sábado, 7 de junho de 2025

De olhos bem fechados

 Dormem de olhos abertos, mas não veem. 
O mundo queima em silêncio e eles caminham 
Como quem atravessa um campo em flor, 
Sem saber que pisa ossos. 
 
Há os que fecham os olhos não por medo, 
Mas por cansaço. 
Cegaram-se de tanto ver, 
E agora vivem de costas para o horizonte, 
Cultivando sombras em vez de jardins. 
 
Fecharam os olhos ao real 
E pintaram janelas no escuro. 
Chamam isso de paz, 
Mas é apenas um pacto com a ilusão. 
 
Alguns não veem o mundo 
Porque o mundo os feriu primeiro. 
Cobriram os olhos com véus de indiferença, 
E chamaram isso de sobrevivência. 
 
Olhos fechados, ouvidos mudos, 
Almas adormecidas em plena luz. 
São como estátuas à beira do abismo: 
Belas, imóveis, prestes a cair. 
 
 Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Tão sozinho

 Tão sozinho, 
Descobre que o eco é sua própria voz, 
E nela, um mundo inteiro escondido.
Na ausência de todos, 
Um espelho: 
O silêncio revela o que os gritos escondiam. 
 
A solidão não é vácuo, 
Mas ventre. 
Ali nasce o que em ti dormia. 
 
Quando o mundo se cala, 
Te escutas. 
E, enfim, entendes o nome que nunca disseram. 
Perdido entre sombras, 
Teu próprio passo te guia. 
E descobres que és estrada e viajante. 
 
Tão sozinho, 
Já não és um entre muitos, 
És inteiro entre ecos. 
Na solidão mais funda, 
O susto: 
Você ainda respira. 
E é suficiente. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 6 de junho de 2025

O amor não responde perguntas

 O amor não segue trilhas. 
Ele se perde de propósito, 
Desenha mapas em corações distraídos 
E planta jardins onde antes só havia ruínas. 
 
Há encontros que parecem erro, 
Mas na alma acendem uma vela 
Que nenhuma lógica apaga. 
 
Às vezes, o amor chega com passos de silêncio, 
Como quem não quer ficar, 
E fica. 
 
O coração não entende de tempo. 
Ele se move em compassos próprios, 
Buscando o outro em mil rostos, 
Até reconhecer, num instante, 
Aquilo que sempre soube. 
 
É preciso se perder para amar. 
O amor não aceita guias, 
Desfaz rotas, vira o mundo ao avesso 
E nos costura de novo,
Com a linha da surpresa. 
 
O amor não responde perguntas. 
Ele é a pergunta que ecoa, 
Queima devagar e, ainda assim, 
Nos aquece por dentro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Não sei dizer adeus

 Há partidas que se impõem como o outono: 
Sabemos que virão, mas não sabemos 
Como arrancar as folhas do peito 
Sem sangrar raízes. 
 
Dizer adeus é desenhar com a voz 
O fim de uma casa que ainda mora em nós. 
E eu, tropeçando em sílabas, 
Prefiro o silêncio, 
Ele também chora, 
Mas ninguém percebe. 
 
Você partiu antes que eu aprendesse 
A conjugar o verbo deixar. 
Fiquei com a língua presa 
No passado imperfeito. 
 
Mesmo sabendo que o tempo exige esse adeus, 
Meus gestos ainda guardam portas entreabertas. 
Como se um retorno 
Fosse menos impossível que te esquecer. 
 
Não sei dizer adeus. 
Só sei calar devagar, 
Como quem fecha os olhos 
Esperando que o mundo volte a ser sonho. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Nem tudo é loucura

 Nem tudo o que é insano 
Se veste de escuridão. 
Às vezes, usa gravata, 
Pede licença, 
Fala com calma 
E sorri como se fizesse sentido. 
 
Nem toda loucura arranha as paredes. 
Algumas sentam à mesa, 
Dão bom-dia, 
E escondem o caos 
Num gesto de educação. 
 
Há delírios que sabem esperar, 
Que caminham em linha reta 
Só para parecerem normais,
Mas por dentro, 
Desenham espirais com o pensamento. 
 
O absurdo nem sempre berra. 
Às vezes, ele sussurra, 
Fica ali no canto do olho, 
No silêncio de uma decisão 
Que ninguém ousa questionar. 
 
E então, um dia, a máscara cai, 
O tempo se dobra, e percebemos: 
A loucura não chegou agora. 
Ela sempre esteve aqui. 
Só que parecia sensata demais 
Para ser notada. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

terça-feira, 3 de junho de 2025

Suavemente

Suavemente, 
Como brisa que arde, 
Tua carícia me percorre 
Com a lentidão de quem conhece o abismo. 
 
Nas tuas mãos, malícia 
Domínio e desejo, 
Um jogo antigo 
Onde me perco por vontade. 
 
Prostrado, 
Sem defesas, 
Me ofereço à febre do teu corpo, 
À dança muda que só a pele entende. 
 
Na tua cama, sem sono, 
O tempo se dobra, 
E cada gemido 
É uma promessa dita com os olhos fechados. 
 
Me devoras 
Como quem reza em segredo: 
Profano e sagrado, 
No mesmo beijo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Quando a noite me leva até você

 Quando o mundo se dobra em silêncio 
E as janelas já não refletem nada, 
Meus pensamentos saem descalços, 
Tateando o escuro à tua procura. 
 
A cama é vasta demais sem teu corpo, 
E o lençol, por mais macio, 
Não imita teu toque. 
Só o frio conhece a ausência que você deixa. 
 
Fecho os olhos não para dormir, 
Mas para te ver melhor. 
Ali, onde a realidade cede ao delírio, 
É onde tua boca ainda me chama, 
Onde tua pele ainda me reconhece. 
 
Toda madrugada me devora em segredo. 
O relógio não conta horas, 
Conta suspiros. 
E cada minuto sem você 
É um fio de sombra que me enlaça. 
 
Eu te invento nos meus braços, 
Crio teu cheiro entre os travesseiros, 
Te esculpo em pensamentos urgentes 
Como se o desejo pudesse 
Moldar a carne do impossível. 
 
Teu nome é um eco que não cessa, 
Um feitiço que me prende 
Entre o sonho e a falta. 
Às vezes sussurro baixinho, 
Esperando que, em algum lugar, 
Você ouça. 
 
É à noite que você mais existe. 
Quando tudo dorme, 
Menos esse desejo. 
Essa sede que só você sacia, 
Mesmo estando ausente. 
 
Porque no fundo, amor, 
Não é o sono que me visita, é você. 
E quando me tocas em pensamento, 
Acordo ainda mais desperto, 
Ardendo de silêncio e desejo. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

domingo, 1 de junho de 2025

Esse amor silencioso que sinto

 Há um nó no peito que não se desata, 
Feito laço de silêncio e desejo. 
Amo com a alma escancarada, 
Mas meus lábios são cárceres do segredo. 
 
Vejo teu riso e sou sombra atrás da luz. 
Tua felicidade é meu veneno e minha cura. 
Porque te amo tanto, não te toco. 
Porque te respeito, me desfaço em silêncio. 
 
Carrego teu nome em pensamento, 
Como quem guarda fogo entre as costelas. 
Não posso acender, não posso apagar. 
Apenas arder, inteiro e invisível. 
 
Tu amas outro 
E eu amo em mim tudo que jamais serei contigo. 
Sou testemunha da tua alegria, 
E cúmplice do meu próprio naufrágio. 
 
Quem me dera amar menos, ou te esquecer. 
Mas o amor verdadeiro não pede permissão, 
Nem se esconde: 
Ele apenas aprende a dançar no escuro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

Estar perdido

Estar perdido 
É ter o nome arrancado da boca do mundo. 
É caminhar sem sombra, 
Porque até ela se esqueceu de seguir. 
É o corpo intacto e a alma esfolada por dentro.
Perder-se não é ausência de caminho 
É excesso de estradas que sangram os pés. 
Cada escolha feita com fome vira armadilha. 
 
Quem se perde não desaparece 
Apenas deixa de caber no olhar alheio. 
É um naufrágio em terra firme, 
Com os gritos abafados pela rotina dos outros. 
A violência de se estar perdido não grita — sussurra. 
E o sussurro corta mais fundo 
Porque ninguém o ouve. 
 
Estar perdido 
É carregar um coração espancado pelo tempo, 
Um mapa que chora as rotas apagadas, 
Um idioma que ninguém mais entende. 
Perder-se é morrer de sede no meio da água. 
É gritar o próprio nome 
Até ele deixar de soar verdadeiro. 
É olhar no espelho e não pedir socorro. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Decadência

Caminho entre destroços de mim 
Com o porte de um desfile. 
O tempo mastigou meus dias 
Com dentes de ouro falso, 
Mas ainda piso firme 
Como quem crê na eternidade de um salto alto. 
 
Meus bolsos estão cheios 
De cinzas, Bilhetes antigos, 
E gargalhadas mal lembradas 
Mas faço deles um estojo 
Para a última faísca de beleza. 
 
O espelho me olha com pena, 
Mas eu retribuo com pose. 
A decadência me veste como um alfaiate fiel: 
Encaixe perfeito nas costuras da desilusão. 
 
As paredes do meu quarto 
Descascaram com charme. 
Até os cupins parecem artistas, 
Esculpindo arabescos nas vigas 
Do que restou de mim. 
 
Já não espero visitas, 
Mas deixo as velas acesas. 
Não por esperança, 
Mas por vaidade. 
 
E se perguntarem se sofri, 
Direi que sim 
Mas sofri como se dança um tango: 
Coluna ereta, olhos fechados, 
E um perfume 
Que disfarça qualquer desmoronamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

O eco dos esquecidos

A ideia é soprada nos meus ouvidos, 
Não sei se é sonho ou lembrança, 
Mas queima. 
Vem leve como brisa de outono, 
Mas carrega o peso de séculos calados. 
 
Escrevo. 
Com dedos trêmulos, risco o papel 
Como quem decifra sombras. 
Talvez seja só imaginação 
Ou talvez o eco de um grito 
Que a história abafou em seus porões. 
 
Ouço vozes sem rosto, 
Vozes que se agarram à minha pele, 
Que sussurram nomes, 
Datas, 
Lugares que ninguém mais visita. 
 
São os esquecidos. 
Os que morreram com os olhos abertos, 
Os que tiveram a boca selada, 
Os que arderam em fogueiras sem chamas, 
Os que dançaram em silêncio 
Nos corredores da loucura. 
 
Eles me usam como papel. 
Minha carne é página, 
Meu sangue, tinta, 
Meu medo, trilha sonora. 
 
Não sou autor — sou canal. 
Não crio — evoco. 
Não escrevo — exorcizo. 
 
E a cada linha, 
Um segredo se liberta, 
Uma cicatriz se abre, 
Um tempo se dobra. 
 
A ideia não é minha 
Vem do vento, 
Vem das frestas, 
Vem de um tempo que não vivi. 
Escrevo como quem traduz 
O sussurro dos que não puderam falar. 
 
Escrevo, sim. 
Mas não por escolha. 
Escrevo porque se não o fizer, 
As vozes não me deixarão dormir. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Quem ama de novo

A espera tem o gosto do que nunca veio, 
Mas insiste em bater na porta do peito 
Com os dedos ansiosos da esperança. 
É um silêncio povoado de suspiros, 
Onde o coração se senta à beira do tempo 
E reza por alguém que ainda não tem nome. 
 
Mas o medo… 
Ah, o medo costura feridas antigas 
Com linhas invisíveis, 
Fazendo do amor um campo minado 
Onde cada passo treme. 
 
Desejo e temor dormem na mesma cama. 
O primeiro sonha com olhos que brilham, 
O segundo acorda suando 
Ao lembrar do que já sangrou. 
 
Quem ama de novo é um sobrevivente. 
Carrega nos lábios um beijo cauteloso 
E no peito um escudo invisível 
Feito de promessas quebradas. 
 
Esperar é escrever cartas para o vento. 
Amar outra vez… 
É deixar que o vento responda 
Com a voz de alguém 
Que talvez também tema, 
Mas venha. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Nem todo labirinto

 Nem todo labirinto foi feito para escapar. 
Alguns existem apenas para que a gente se perca 
E se descubra perdido. 
 
Há caminhos que se dobram sobre si mesmos, 
Como serpentes que devoram o próprio rastro. 
Ali, a saída é uma ilusão 
Que respira com o tempo. 
 
O pior labirinto é aquele que mora em nós. 
Sem muros, sem portas. 
Apenas espelhos. 
 
Nem todo labirinto quer nos prender. 
Alguns apenas nos convidam 
A permanecer no centro 
Onde o silêncio é rei e a solidão, altar. 
 
Alguns labirintos 
Foram escritos em linhas tortas, 
Sem começo, meio ou fim. 
São poemas trancados em si mesmos, 
Sem leitor, sem resposta. 
 
Quem disse 
Que todo caminho precisa levar a algum lugar? 
Há trilhas que existem só para nos lembrar 
Que o destino não é o ponto final, 
Mas o próprio perder-se. 
 
E se a saída for o próprio desistir? 
Aceitar que certas dores não se vencem 
Se acolhem. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense