segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Relógios sem testemunhas

 As horas não caem. 
Acumulam-se nas bordas da xícara esquecida, 
Entre o vidro da janela 
E o rumor de uma rua que aprendeu 
A repetir os mesmos passos. 
 
Havia um relógio sobre a parede, 
Mas ninguém lhe perguntava as respostas. 
Os ponteiros apenas desenhavam círculos, 
Como pássaros presos 
À geometria do vento. 
 
Recordamos o futuro 
Com a mesma nostalgia 
Com que esquecemos o passado. 
Talvez o presente seja apenas 
Uma porta entreaberta que evitamos atravessar. 
 
Na praça, um homem alimenta os pombos. 
Os pombos alimentam o silêncio. 
O silêncio alimenta os edifícios, 
E os edifícios, pedra sobre pedra, 
Guardam nomes que já não encontram seus rostos. 
 
Quem diz que lhe falta tempo 
Talvez nunca tenha escutado 
O lento trabalho da luz sobre as sombras, 
Nem percebido que um minuto inteiro 
Pode caber no intervalo de um olhar. 
 
Quando a tarde recolhe seus espelhos, 
Permanece apenas o eco 
De tudo o que poderia ter sido vivido. 
E a noite, paciente arquivista, 
Fecha mais uma página sem fazer ruído. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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