domingo, 15 de fevereiro de 2026

Apologia ao conhecimento IV

 O conhecimento me visitou 
Quando já não havia testemunhas. 
Não bateu à porta, 
Sentou-se comigo 
No escuro. 
 
Aprender foi perder o chão 
Dentro de mim. 
As certezas caíram primeiro, 
Depois as palavras fáceis, 
Por fim, a paz. 
 
Descobri que saber 
É conversar com aquilo 
Que eu tentava calar. 
E ele nunca responde 
Com gentileza. 
 
Há pensamentos que não compartilho, 
Não por orgulho, 
Mas porque nasceram 
Num lugar 
Onde só eu sangrei. 
 
O conhecimento não me fez melhor. 
Fez-me mais atento 
Às minhas próprias mentiras 
E menos indulgente 
Com meus silêncios. 
 
Às vezes sinto saudade 
De quando não sabia. 
Mas sei que essa saudade 
Já é um efeito do saber, 
E não um refúgio. 
 
Pensar é ficar acordado 
Quando o mundo dorme 
E perceber 
Que ninguém virá 
Confirmar se estou certo. 
 
O que aprendi 
Não cabe em discurso. 
Cabe em vigílias, 
Em pausas longas, 
Em escolhas que não explico. 
 
O conhecimento 
Não me afastou das pessoas, 
Aproximou-me de mim. 
E isso, confesso, 
Foi o mais difícil de suportar. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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