Quando já não havia testemunhas.
Não bateu à porta,
Sentou-se comigo
No escuro.
Aprender foi perder o chão
Dentro de mim.
As certezas caíram primeiro,
Depois as palavras fáceis,
Por fim, a paz.
Descobri que saber
É conversar com aquilo
Que eu tentava calar.
E ele nunca responde
Com gentileza.
Há pensamentos que não compartilho,
Não por orgulho,
Mas porque nasceram
Num lugar
Onde só eu sangrei.
O conhecimento não me fez melhor.
Fez-me mais atento
Às minhas próprias mentiras
E menos indulgente
Com meus silêncios.
Às vezes sinto saudade
De quando não sabia.
Mas sei que essa saudade
Já é um efeito do saber,
E não um refúgio.
Pensar é ficar acordado
Quando o mundo dorme
E perceber
Que ninguém virá
Confirmar se estou certo.
O que aprendi
Não cabe em discurso.
Cabe em vigílias,
Em pausas longas,
Em escolhas que não explico.
O conhecimento
Não me afastou das pessoas,
Aproximou-me de mim.
E isso, confesso,
Foi o mais difícil de suportar.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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