Que este ajuntamento de sábios defuntos?
Enquanto o mundo corre atrás de assuntos
Que acabam em vaidade consumida,
Guardo a palavra antiga e refletida.
Vejo fidalgos de pomposa aparência,
Mercadores de honra e de opinião;
Vendem virtude em praça e procissão,
Mas mostram, na primeira conveniência,
Que o ouro é sua única consciência.
Os livros, porém, não fingem grandeza,
Não trocam a verdade por aplausos;
Suportam em silêncio os muitos causos
Da humana e tão frágil natureza,
Sem mascarar a própria pequeneza.
Aqui converso com o morto e o ausente,
Com o poeta, o filósofo e o soldado;
Cada qual, por seu destino castigado,
Ensina que é breve a glória da gente
E que o tempo não poupa o mais potente.
Por isso não renuncio à livraria,
Refúgio contra o engano e a aparência;
Se o mundo é teatro de inconsistência,
Prefiro a companhia e a cortesia
Dos livros à vulgar hipocrisia.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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