segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ode à minha biblioteca

 Que tesouro maior pode haver na vida, 
Que este ajuntamento de sábios defuntos? 
Enquanto o mundo corre atrás de assuntos 
Que acabam em vaidade consumida, 
Guardo a palavra antiga e refletida. 
 
Vejo fidalgos de pomposa aparência, 
Mercadores de honra e de opinião; 
Vendem virtude em praça e procissão, 
Mas mostram, na primeira conveniência, 
Que o ouro é sua única consciência. 
 
Os livros, porém, não fingem grandeza, 
Não trocam a verdade por aplausos; 
Suportam em silêncio os muitos causos 
Da humana e tão frágil natureza, 
Sem mascarar a própria pequeneza. 
 
Aqui converso com o morto e o ausente, 
Com o poeta, o filósofo e o soldado; 
Cada qual, por seu destino castigado, 
Ensina que é breve a glória da gente 
E que o tempo não poupa o mais potente. 
 
Por isso não renuncio à livraria, 
Refúgio contra o engano e a aparência; 
Se o mundo é teatro de inconsistência, 
Prefiro a companhia e a cortesia 
Dos livros à vulgar hipocrisia. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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