quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O beijo do abismo

 Já não temo o teu sorriso. 
Ele me chama 
Como o mar chama os náufragos, 
Com promessas de repouso, 
Com segredos de afogamento. 
 
Deixo que me encontre, 
Que percorra em mim 
Os lugares onde o silêncio dorme. 
 Cada curva tua é um convite, 
Cada olhar, uma vertigem. 
 
Agora compreendo que 
Não se luta contra o destino 
Que vem em forma de boca, 
Nem contra a paz que tem gosto de abismo. 
 
Quando me tocas, 
Não é pele o que se move, 
É memória, 
É tudo o que fui, desfeito, 
Para caber no instante. 
 
E se houver fim, que seja 
Com o coração rendido, 
E o corpo entregue 
Ao feitiço que começou no teu sorriso. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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