Na hora indecisa entre a tarde e a noite,
Quando as sombras se acumulam nos cantos da memória
E os relógios repetem suas pequenas eternidades mecânicas,
Teu olhar atravessa a sala como uma pergunta antiga.
Não uma pergunta que exige resposta,
Mas uma que permanece suspensa
Entre o que fomos e o que jamais seremos.
As ruas continuam seu murmúrio de passos anônimos,
Os postes acendem sua luz fatigada sobre o asfalto,
E eu caminho entre vitrines, notícias e calendários.
Contudo, algo me acompanha:
A lembrança daquele olhar simples,
Mais persistente que os sinos distantes
E mais silencioso que a poeira sobre os livros esquecidos.
O mundo fragmenta-se em imagens dispersas:
Uma janela iluminada, um banco vazio,
O eco de uma conversa perdida no vento.
Mas teus olhos reaparecem entre os fragmentos,
Como um verso incompleto encontrado
Nas margens de um manuscrito envelhecido,
Insistindo em sobreviver ao esquecimento.
E pergunto, como quem interroga as ruínas:
O que existe nesse olhar tão desarmado?
Que estranha gravidade habita sua doçura?
Pois não há promessa, nem juramento, nem destino,
Apenas a delicada evidência de uma presença
Que transforma o instante mais comum
Num corredor aberto para o infinito.
Permaneço, entre o tempo e sua erosão,
Escutando o rumor das horas que passam.
E enquanto a noite fecha suas portas sobre a cidade,
Teu olhar continua aceso na memória,
Como uma pequena chama guardada entre destroços,
Iluminando por um momento
A vastidão silenciosa da existência.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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