segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O que existe nesse olhar?

Na hora indecisa entre a tarde e a noite, 
Quando as sombras se acumulam nos cantos da memória 
E os relógios repetem suas pequenas eternidades mecânicas, 
Teu olhar atravessa a sala como uma pergunta antiga. 
Não uma pergunta que exige resposta, 
Mas uma que permanece suspensa 
Entre o que fomos e o que jamais seremos. 
 
As ruas continuam seu murmúrio de passos anônimos, 
Os postes acendem sua luz fatigada sobre o asfalto, 
E eu caminho entre vitrines, notícias e calendários. 
Contudo, algo me acompanha: 
A lembrança daquele olhar simples, 
Mais persistente que os sinos distantes 
E mais silencioso que a poeira sobre os livros esquecidos. 
 
O mundo fragmenta-se em imagens dispersas: 
Uma janela iluminada, um banco vazio, 
O eco de uma conversa perdida no vento. 
Mas teus olhos reaparecem entre os fragmentos, 
Como um verso incompleto encontrado 
Nas margens de um manuscrito envelhecido, 
Insistindo em sobreviver ao esquecimento. 
 
E pergunto, como quem interroga as ruínas: 
O que existe nesse olhar tão desarmado? 
Que estranha gravidade habita sua doçura? 
Pois não há promessa, nem juramento, nem destino, 
Apenas a delicada evidência de uma presença 
Que transforma o instante mais comum 
Num corredor aberto para o infinito. 
 
Permaneço, entre o tempo e sua erosão, 
Escutando o rumor das horas que passam. 
E enquanto a noite fecha suas portas sobre a cidade, 
Teu olhar continua aceso na memória, 
Como uma pequena chama guardada entre destroços, 
Iluminando por um momento 
A vastidão silenciosa da existência. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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