sábado, 3 de outubro de 2026

O Evangelho do último papel

 Depois do fim, 
Quando as cidades viraram poeira 
E o ar cheirava a ferrugem e cinza, 
Houve um instante em que tudo ficou quieto, 
Nenhum som de máquina, 
Nenhum pulso azul de tela. 
 
O mundo morreu com um estalo. 
O silício queimou em seu próprio brilho, 
E os servidores, como templos antigos, 
Desabaram sob o peso do esquecimento. 
A eletricidade evaporou-se 
Como a alma de um deus cansado. 
 
Mas algo ficou. 
Entre os escombros das bibliotecas digitais, 
Entre carcaças de plástico e vidro, 
Repousava um livro, 
Amarelado, ferido, 
Cheirando a tempo e chuva. 
 
E quando mãos humanas, já raras, 
O abriram, 
Um sopro levantou-se do papel, 
Como se o próprio mundo respirasse de novo. 
 
As palavras tremiam, 
Não de medo, mas de memória. 
Falavam de mares e crianças, 
De sol e esquecimento, 
De como o homem criou o fogo, 
E depois o fogo o consumiu. 
 
Não havia mais eletrônicos, 
Nem sinais, nem códigos. 
A linguagem voltou a ser carne, 
A escrita, sangue seco sobre a terra. 
 
E o livro, o último sobrevivente, 
Olhou o horizonte calcinado 
E sussurrou: 
“Eu avisei. 
Eu sempre avisei.” 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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