sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A ilusão de mil vidas

A dispersão chega cedo. 
Ela está no rádio ligado sem motivo, 
Na garrafa esquecida sobre a mesa, 
Nas manchetes que você lê 
E esquece cinco minutos depois. 
Ela gosta de apartamentos apertados, 
De noites mal dormidas, 
De gente que troca de sonho 
Como quem troca de camisa. 
 
A sabedoria não faz propaganda. 
Fica sentada num canto, 
Observando em silêncio, 
Esperando que você se canse 
De correr atrás de tudo. 
 
E você corre. 
Corre atrás de dinheiro, 
De elogios, 
De notícias, 
De rostos, 
De qualquer coisa que o impeça 
De ouvir o barulho dos próprios pensamentos. 
 
Uma hora a festa acaba. 
A tela escurece, 
O bar fecha, 
Os amigos vão embora, 
E sobra você 
Encarando a si mesmo 
Como um estranho no espelho. 
 
É aí que a sabedoria aparece. 
Não como uma santa, 
Não como uma professora, 
Não como uma voz vinda do céu. 
Aparece como um soco simples. 
Você passou anos olhando para todos os lados 
E nunca olhou direito para dentro. 
 
Então a resposta é revelada. 
Escolha uma coisa que importe. 
Fique com ela. 
Suporte o tédio. 
Suporte o silêncio. 
Porque a dispersão vende a ilusão de mil vidas, 
Mas a sabedoria nasce 
Quando você finalmente aprende 
A habitar a sua. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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