A dispersão chega cedo.
Ela está no rádio ligado sem motivo,
Na garrafa esquecida sobre a mesa,
Nas manchetes que você lê
E esquece cinco minutos depois.
Ela gosta de apartamentos apertados,
De noites mal dormidas,
De gente que troca de sonho
Como quem troca de camisa.
A sabedoria não faz propaganda.
Fica sentada num canto,
Observando em silêncio,
Esperando que você se canse
De correr atrás de tudo.
E você corre.
Corre atrás de dinheiro,
De elogios,
De notícias,
De rostos,
De qualquer coisa que o impeça
De ouvir o barulho dos próprios pensamentos.
Uma hora a festa acaba.
A tela escurece,
O bar fecha,
Os amigos vão embora,
E sobra você
Encarando a si mesmo
Como um estranho no espelho.
É aí que a sabedoria aparece.
Não como uma santa,
Não como uma professora,
Não como uma voz vinda do céu.
Aparece como um soco simples.
Você passou anos olhando para todos os lados
E nunca olhou direito para dentro.
Então a resposta é revelada.
Escolha uma coisa que importe.
Fique com ela.
Suporte o tédio.
Suporte o silêncio.
Porque a dispersão vende a ilusão de mil vidas,
Mas a sabedoria nasce
Quando você finalmente aprende
A habitar a sua.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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