Que a paixão não passa de um truque barato.
Ele já ouviu isso antes,
Em bares esfumaçados,
Em apartamentos vazios,
Na voz rouca de amigos derrotados
Que confundiam cicatrizes com sabedoria.
O coração escuta,
Mas raramente aprende.
Ele vê uma pessoa,
Um sorriso,
Um gesto qualquer numa tarde comum,
E de repente transforma aquilo
Numa razão para continuar respirando.
É ridículo.
E é exatamente por isso
Que seja tão humano.
Os sensatos fazem listas,
Calculam probabilidades,
Levantam muralhas ao redor de si.
Depois envelhecem.
E um dia descobrem
Que sobreviveram a todos os riscos,
Mas também sobreviveram
A quase toda a vida.
O coração não quer saber dessas coisas.
Ele prefere perder.
Prefere cair de cara no chão.
Prefere passar noites acordado
Olhando para o teto
E inventando futuros impossíveis.
Porque existe algo pior
Do que ser chamado de louco.
É nunca ter acreditado em nada.
É passar pela vida
Como quem atravessa uma estação de trem
Sem comprar passagem,
Sem embarcar,
Sem se despedir de ninguém.
Então deixe o coração em paz.
Ele sabe que pode quebrar.
Sabe que provavelmente vai.
Mas continua apostando suas últimas moedas
Na mesa do amor,
E há uma estranha dignidade nisso.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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