Onde tudo tem preço e locação,
Vende-se a honra, aluga-se a opinião,
Troca-se a alma por breve regalia;
E o homem, que se julga em soberania,
Vive preso à dourada servidão,
Fazendo da cobiça sua religião.
Já não se busca o bem, mas a aparência,
Já não se estima a virtude constante;
Vale mais o brilho falso e cintilante
Que o suor da honrada consciência.
Ó mundo! Que tamanha decadência,
Que faz do vício um trono triunfante
E do sensato um pobre caminhante.
Alugam-se os afetos mais profundos,
Os sorrisos, os gestos e a atenção;
Cada qual traz à mostra o coração,
Mas o guarda distante dos segundos.
São ricos de aparências estes mundos,
Porém pobres de fé e convicção;
Muito rumor e pouca comunhão.
Mas que importa ao sábio tal costume?
Se tudo passa, passe a ilusão;
Não se prende à fumaça sua mão,
Nem se curva ao capricho que presume.
Busca em si uma luz que não se consume,
Faz da prudência sua habitação
E da verdade a sua possessão.
Assim concluo, em verso desabrido:
Quem faz do efêmero seu fundamento,
Encontrará no tempo o esquecimento;
Quem vive apenas para ser servido,
Partirá deste mundo tão despido
Quanto chegou ao breve alojamento,
Levando só seu ato e pensamento.
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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