terça-feira, 6 de outubro de 2026

Neste século de pomposa fantasia

 Neste século de pomposa fantasia, 
Onde tudo tem preço e locação, 
Vende-se a honra, aluga-se a opinião, 
Troca-se a alma por breve regalia; 
E o homem, que se julga em soberania, 
Vive preso à dourada servidão, 
Fazendo da cobiça sua religião. 
 
Já não se busca o bem, mas a aparência, 
Já não se estima a virtude constante; 
Vale mais o brilho falso e cintilante 
Que o suor da honrada consciência. 
Ó mundo! Que tamanha decadência, 
Que faz do vício um trono triunfante 
E do sensato um pobre caminhante. 
 
Alugam-se os afetos mais profundos, 
Os sorrisos, os gestos e a atenção; 
Cada qual traz à mostra o coração, 
Mas o guarda distante dos segundos. 
São ricos de aparências estes mundos, 
Porém pobres de fé e convicção; 
Muito rumor e pouca comunhão. 
 
Mas que importa ao sábio tal costume? 
Se tudo passa, passe a ilusão; 
Não se prende à fumaça sua mão, 
Nem se curva ao capricho que presume. 
Busca em si uma luz que não se consume, 
Faz da prudência sua habitação 
E da verdade a sua possessão. 
 
Assim concluo, em verso desabrido: 
Quem faz do efêmero seu fundamento, 
Encontrará no tempo o esquecimento; 
Quem vive apenas para ser servido, 
Partirá deste mundo tão despido 
Quanto chegou ao breve alojamento, 
Levando só seu ato e pensamento. 
 
Poema: Odair José, Poeta Cacerense

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